Cheia de Graça

A Patrícia Posse é uma das mais talentosas jornalistas da nova geração que conheço. É ela a autora desta conversa com a pintora Graça Morais, que faz capa do Repórter do Marão, jornal que foi Prémio Gazeta de Imprensa Regional em 2009. Merecidamente, diga-se. Aqui fica a conversa entre duas transmontanas sem peneiras nem falsas modéstias.

A artista que gosta de pintar ‘pessoas simples, sem nome e sem riqueza’
Trás-os-Montes serve-lhe de atelier, porque é aí que se dá “um encontro de muita verdade” com a Natureza e com as gentes. “No meio rural, as pessoas ainda são muito autênticas e gosto desse encontro que, às vezes, é bravo, outras vezes suave, mas sempre muito forte. É isso que eu preciso”, sublinha a pintora Graça Morais.
Ao final da manhã, uma luz meiga entra nas salas do Centro de Arte Contemporânea a que a artista empresta o nome. Junto a uns quadros inspirados na figura típica do careto de Podence, Graça Morais vai desfiando lembranças de uma região muito isolada, onde “as estradas eram péssimas e quando nevava, não havia comboio e tudo ficava fechado”. Começou a pintar desde criança, altura em que “já tinha esse bichinho de querer ser pintora”, e o seu percurso artístico não é mais do que uma transposição da sua vida, das suas memórias e daquilo que está a viver.

“Tem sido uma vida de luta”, assume Graça Morais, aos 63 anos. Se em Bragança, cidade onde fez os estudos liceais, a relação com as pessoas era “muito fácil e simples”, na Faculdade de Belas-Artes, no Porto, as pessoas eram “mais estranhas, algumas mais sofisticadas e a competitividade era muito forte”. “Isso obrigou-me a ter certos cuidados e, sobretudo, a trabalhar. Era quase sempre das últimas a sair das Belas Artes, ficava lá além das horas das aulas, a pintar.”
Contudo, foi em Paris, onde esteve como bolseira da Gulbenkian, que Graça Morais sentiu o desejo de regressar a Vieiro, a aldeia de Vila Flor que lhe serviu de berço. “Estava a ver ‘A Árvore dos Tamancos’ e identifiquei-me tanto com o filme que quis voltar às minhas origens.” Movia-a a necessidade de compreender melhor o meio rural onde nasceu e cresceu. “Precisei de contar a minha história. Para isso, preciso de sentir as pessoas, a Natureza e aperceber-me cada vez mais como é que os ritos da Natureza se casam com os ritos pagãos e com os ciclos das festas, mas depois a minha pintura não tem exatamente a ver com isso.”

Idiossincrasias em extinção
Em cada traço, a racionalidade cruza-se com as emoções, as intuições, os afetos e os conhecimentos acumulados. “Quando andamos à procura e sentimos intensamente essa procura, as coisas vêm ter connosco. É uma questão de estar atenta.” De repente, endereça o olhar para uma tela de 1996 e evoca a memória do jovem Jorge, que segura nas mãos uma galinha “de uma forma contrária à das mulheres”. “Enquanto elas encostavam a galinha ao peito, ele pegou-a pelas patas, uma atitude que nunca tinha visto. E foi esse flash que deu origem a este quadro.”
“A nossa região tem progredido, às vezes, no mau sentido. No tempo dos meus avós e da minha mãe, havia um tipo de vida nas aldeias. Hoje, há outro e essas pessoas continuam a crescer com características diferentes que me interessam”, salienta. Por isso, é que na sua obra não há sombras de nostalgia ou de saudosismo.
Contudo, a artista gosta de imortalizar nos seus traços objetos da região que caíram em desuso. “Aquela forma do malho é de uma grande beleza. Hoje já não se usa, porque não se fazem malhadas, mas eu tenho aquilo guardado”, revela enquanto aponta para a mesma tela.
Além do orgulho com que os usa, Graça Morais gosta ainda de colecionar brincos, esse adereço com uma ligação umbilical à cultura transmontana. “Mal nascíamos, davam-nos brincos de ouro e quando éramos mais crescidas, davam-nos outro brinquinho. Quando as pessoas ficavam viúvas, punham outro”, lembra. Hoje, ao observar as orelhas das mulheres transmontanas, não vê mais do que fantasias.

Liberdade plena só no atelier
Sem reservas, a artista transmontana expõe a sua intimidade espiritual na tela, porque quando pega no pincel fá-lo com “muita sinceridade, muita autenticidade e numa entrega total ao nível do pensamento e do coração”. “Quando pinto no meu atelier, costumo dizer que são os momentos mais felizes da minha vida, porque sou dona daquele espaço e responsável por aquilo que estou a fazer na pintura.”
É no seu local de trabalho que Graça Morais usufrui de “uma liberdade total”. “Na rua, tenho de obedecer a sinais de trânsito; quando estou em sociedade, tenho de obedecer a certas regras, mas no espaço de um quadro, numa lona ou num papel, faço aquilo que me apetece. É o encontro comigo mesma na forma mais total, direta e sincera”, confidencia.
As suas mãos laboram “debaixo de uma grande necessidade de trabalhar”, frequentemente em mais do que um quadro, e no mais absoluto dos silêncios. “Quanto mais envelheço, mais necessidade tenho de ter silêncio”, confessa a artista que prefere pintar durante o dia. A noite sempre a angustiou, por isso, destina-a ao convívio em família, com amigos e aos livros.
Às vezes, ainda pinta descalça e sempre despida de qualquer tipo de adorno, nomeadamente os anéis e os brincos. “Quando estou a pintar, estou muito à-vontade, porque o que eu quero é esquecer-me do meu corpo. O que conta é o meu pensamento e os meus sentimentos.”

Ressuscitar o orgulho nas raízes
No ato da criação, a reação de quem vai ver não inquieta a pintora. Isso acontece posteriormente, quando dá a obra por concluída. Por isso, antes de expor, Graça Morais costuma ouvir o marido, a filha e, às vezes, até a sua empregada. “Não que isso vá alterar o quadro, mas, pelo menos, começo a sentir que reação as pessoas têm daquilo que eu fiz num mundo muito fechado que é o meu mundo.”
As leituras que são feitas sobre um mesmo quadro acabam por surpreendê-la, mas o que realmente lhe interessa é “sentir como é que essa pintura vai ao encontro do imaginário de quem a vê”. “Nesse momento, a pintura está a fazer o seu papel, completamente independente de quem a fez, já está a fazer o seu caminho.”
A “melhor recompensa” é ter um público fiel, seguidor de cada um dos seus passos: “há pessoas que andam atrás dos meus quadros por todo o País, visitam-nos nos diversos lugares onde exponho”. “Ao mesmo tempo, também me interessa muito que a minha pintura seja observada por outros criadores”, acrescenta.
Curiosamente, o público que mais se reconhece na sua obra está na capital do País. “Em Lisboa há muitos transmontanos que vivem à distância. Só vêm de vez em quando à região e, de repente, eles encontram-se na minha pintura.” A assertividade com que reivindica a identidade transmontana da sua obra denota a dignidade com que pinta “pessoas simples, sem nome e sem riqueza”. A força desse gesto suscita uma emoção recalcada daqueles que partiram de Trás-os-Montes, como constatou na primeira grande exposição em Lisboa. “As pessoas diziam-me, às vezes muito emocionadas, que sempre tiveram vergonha de dizer que eram filhos de um lavrador ou de um cavador e que, a partir da minha exposição, tinham vaidade em ser transmontanos. Foi muito gratificante sentir que as pessoas se reconciliavam com um passado mais pobre através da minha pintura.”

Centro de Arte Contemporânea: homenagem dos brigantinos
Inaugurado em meados de 2008, o Centro de Arte Contemporânea Graça Morais já recebeu 52 mil visitantes. Sentido como uma homenagem dos conterrâneos à pintora que não esquece a sua terra, o Centro veio trazer mais dinamismo cultural e turístico à cidade de Bragança. Além das pessoas que chegam de fora, os jovens da terra têm a oportunidade de “começar a ver arte ao vivo”. “A arte não se deve ver nos livros, tem de se ver ao vivo, porque reproduções falham”, defende a artista.
Até janeiro de 2012, Graça Morais expõe “Terra Quente – Terra Fria”, uma mostra com trabalhos que não eram exibidas há 15 anos. “Há pinturas que melhoram com o tempo. São como o vinho do Porto. Quando a pintura é boa envelhece em qualidade, o que é fantástico.”
Em paralelo, a Árvore – Cooperativa de Atividades Artísticas, no Porto, recebe até 20 de novembro a mostra “2011: A Caminhada do Medo”. “É um ano em que estamos com múltiplos medos e toda aquela série nasceu das sensações fortes que estava a viver no dia a dia e, ao mesmo tempo, daquilo que lia nos media”, afirma a pintora.
Em dezembro, Graça Morais vai ser distinguida com o prémio de Artes Casino da Póvoa e, no próximo ano, garante que a prioridade é permanecer uns meses sem expor para “estar só a pensar e a pintar”. “De vez em quando, preciso de me fechar ao exterior para repensar a minha pintura e a minha atitude para dar um salto em frente.”

Data e local de nascimento: 17 de março de 1948, em Vieiro, Vila Flor
Formação: Curso de pintura na Escola Superior de Belas-Artes do Porto
Cor: Preto
Livro: A Sibila, de Agustina Bessa-Luís
Música: Balada da Oliveira, de Pedro Caldeira Cabral
Filme: A Árvore dos Tamancos, de Ermanno Olmi
Prato preferido: Feijoada transmontana

Faltam 11 dias…

«INTRODUÇÃO
Este livro vai contar a primeira parte da história de Lúcio Tomé Feteira, industrial nascido em Vieira de Leiria em 1901. Não é uma biografia. É um retrato – haverá outros – sobre um homem fascinante, de personalidade controversa e inquieta, idolatrado e odiado ao longo dos seus quase cem anos de vida. Este livro não é o julgamento de um tempo ou de um homem. É um livro que tenta preencher um vazio bibliográfico sobre o poderoso clã Feteira e o seu mais ilustre protagonista, figura marcada pela genialidade, a megalomania e a loucura, com tanto de vilão como de santo, com influência no País e no mundo.
Lúcio Feteira foi um visionário e um inconformado.
Desafiou perigos, modelos e convenções.
Atraiu prestígio e invejas, deixando zonas obscuras na sua trajetória, sempre marcada por excessos e obsessões.
Lúcio Feteira acumulou também uma das maiores fortunas do mundo.
A dimensão exata dessa riqueza é, ainda hoje, incalculável.
Falecido no ano 2000, a sua herança gerou disputas, inimizades, desconfianças e ciúmes entre herdeiros.
A 8 de dezembro de 2009 juntou‑se a isso uma tragédia maior: o assassínio de Rosalina Ribeiro, secretária e íntima do milionário.
A opinião pública ouviu então pela primeira vez o nome de Lúcio Feteira, associando‑o ao folhetim de um crime por desvendar e a uma herança sangrenta. No fundo, circunstâncias irónicas e injustas para um homem que ficou famoso por desafiar inércias e rotinas, escolhendo para os seus dias uma vida desmedida, corajosa e perversa.
É essa a história que este primeiro volume começará a trazer à luz do dia.
Porto, outubro de 2011

Sábado à tarde, com um gato vadio

«A Mulher Descalça» de Jorge Fallorca
Lançamento com o autor e Cláudia Sousa Dias
Sábado, 12 de Nov., 17h
GATO VADIO – Rua do Rosário, 281 (Porto)

“Jorge FALLORCA é escritor, tradutor e autor do blogue «O cheiro dos Livros». Natural de Mortágua, exerceu ainda jornalismo e teve uma intensa actividade profissional na rádio tendo participado em programas que fizeram história. Autor de uma escrita impregnada de um quotidiano desencantado e dissidente da massa, Fallorca é pela sua singularidade iconoclasta uma voz libertina nesta choldra em que pastamos”.
Do blogue dos gatos vadios