Diário de um pai em construção – 26

A primeira papa. «Boquinha santa», disse a mãe. Já adivinhava. Um dos deslumbramentos desta minha fase de pai a tempo inteiro, é estar por perto para estes momentos. Além, é claro, de me ter transformado numa espécie de operário de criança em construção, com tudo o que isso acarreta em matéria de aquece-água-muda-fralda-dá-de-mamar-adormece-aquece-água-muda-fralda-dá-de-mamar-adormece e por aí adiante. Alguns dirão: «toma que é aprenderes como é que elas doem». Mas não doem. Gosto de ser sopeira do meu filho, ainda que, por vezes, haja que actualizar uma entrevista, ditar um texto pelo telefone ou ajustar umas legendas de última hora. E tentar escrever pelo meio. Nada de grave. Seguindo tudo by the book, a recompensa é conhecida, vem nos livros. Em doses fartas e, sempre, sempre de lágrima ao canto do olho.

O pior dos tempos

O grupo Impala fechou a Focus quando a revista estava a subir nas tiragens e vai despedir 70 pessoas noutras publicações. O Diário Económico avança para “rescisões amigáveis” para tentar poupar mais de dois milhões de euros. No Público, o lay-off foi evitado há umas semanas à custa de uma redução salarial que não deixa ninguém de fora. Os cortes, os despedimentos, as «reestruturações» não poupam jornais, revistas ou canais de televisão, mesmo que as vendas e as audiências se mantenham ou subam. Já não é esse o critério. Crise? Má gestão? Pretexto? Haverá de tudo um pouco. Mas estes são, talvez, os piores tempos de sempre para o jornalismo português. E 2012 ainda agora começou. No imediato, este talvez seja apenas um problema das empresas e das redacções. Mas a médio/longo prazo será um problema de cidadania.