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Arquivos Diários: 21 de Janeiro de 2012

Por ti, para ti, Guimarães

Sou suspeito: alguns dos meus amigos mais firmes são daqui. Desta terra de carácter, de memória e identidade. Eu, tripeiro de gema, aprendi que ser de Guimarães nunca é um acidente. É para a vida. Sei-o bem porque conheço os que lá nasceram e vivem. Não são povo de meias-tintas nem de falinhas mansas. O que já é motivo de orgulho num tempo onde todos cabemos nas molduras da vulgaridade e do cinzentismo. Podemos discordar destas gentes vezes sem conta ou abraçá-las de coração. Mas com elas sabemos ao que vamos. E donde vimos. Sem mesquinhices nem palmadinhas nas costas.
Aprendi a gostar de Guimarães como quem ama este naco de terra que nos fez, com todas as suas tragédias, vicissitudes e paixões. Guimarães é, a partir de hoje, Capital Europeia da Cultura. É bonito, merecido e faz bem ao ego. Mas Guimarães já era, antes dessa medalha, uma referência. Cultural, comunitária, associativa, identitária. É sangue que lhe corre nas veias, sem olhar a gerações. Nem a condecorações. Por isso, aqui, os miúdos vão para a escola, desde cedo, com o cachecol do Vitória e ar matulão. Por isso, aqui, os graúdos são eternas crianças, folgazões e carregados de sonhos, pelas Nicolinas ou pelas Gualterianas. É por isso que nestas ruas, muralhas e vielas bate firme o compasso dos afectos e das tradições. E tudo se guarda, para sempre, no peito da cidade. Neste dia em que Guimarães é honra, orgulho e vaidade de um território hoje tão espezinhado na sua condição, junto as minhas humildes palavras a este dia de festa: por ti, para ti, Guimarães, o abraço mais apertado em troca desse chão firme que me deste. Para a vida.

 
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Publicado por em 21 de Janeiro de 2012 in devida comédia

 

Uma esmolinha, sff

É o retrato do momento que vivemos neste protectorado à beira-mar plantado: um Presidente da República em estado de troika que, coitado, diz que aquilo que receberá das reformas da Caixa Geral de Aposentações e do Banco de Portugal «não vai chegar para pagar as despesas». Ora, só de pensões dos diversos cargos que ocupou, Sua Excelência recebeu, no ano passado, 141 mil euros brutos. É a miséria escondida, nem sei que vos diga. Adiante. Se virem por aí o homem num albergue nocturno, numa calçada ou numa sopa dos pobres, tenham uma atençãozinha para com ele. Afinal, ele foi um dos que nos trouxe até aqui. E seríamos ingratos se não tívessemos memória.

 
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Publicado por em 21 de Janeiro de 2012 in devida comédia

 

A sopeira que há em mim – 7

Ouvi-os a primeira vez teria os meus 8 anos. Na casa da avó materna não havia cassetes nem discos, mas aquela coisa a que chamavámos «cartuchos». E lá estavam os Fevers. Cantei «Onde estão teus olhos negros» noites a fio, em cima de uma cadeira, para tirar e pôr outra vez os malfadados «cartuchos», cuja fita rasgava com uma facilidade triste. Cantei-a em noites de São João, com fogueira no largo e vizinhança a bailaricar, em volta. Andava há anos para comprar um disco destes ilustres senhores até que eles olharam para mim, na Fnac, a um preço bem jeitoso. E agora, até o filhote já gosta. Será isto a passagem de testemunho entre gerações? «Onde estão teus olhos negros, onde estão teus olhos negros, que eu de perto vi antes de dormir, e agora estão longe daqui, lalala…»

 
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Publicado por em 21 de Janeiro de 2012 in devida comédia

 

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