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Arquivos Diários: 30 de Janeiro de 2012

O bicho da maçã

A propósito do endeusamento do senhor Steve Jobs, para o qual contribuiram rebanhos de jornalistas muito «applicados» do Portugal sentado, eis uma outra versão – menos comercial, é certo – sobre os bastidores da inovação, da tecnologia e da genialidade associada ao patrão da Apple, falecido em Outubro do ano passado.

STEVE JOBS, O MAU PATRÃO
Por Fernão Lara Mesquita (jornalista brasileiro, blogue Vespeiro)

O “golpe do gato” consistia no seguinte. O sujeito ia lá para os mais miseráveis grotões do Brasil e oferecia uma boia de salvação. “Precisa-se gente disposta e decidida para trabalhar em frentes de desmatamento na Amazônia. Paga-se bem“.

Eram os anos 70 e as beiradas da Amazônia estavam tão longe do mundo com leis quanto um planeta distante.

O cara ia e logo se dava conta de que para comer, se vestir, tomar um remediozinho, ter qualquer contato com a civilização, dependia da estrutura montada pelo patrão. Só aí enxergava o outro lado da moeda. Na vendinha do patrão tudo custava 10 vezes mais caro. Mas podia ser comprado a prazo… Moral da história: o sujeito ficava devendo sempre mais do que ganhava e virava escravo.

O golpe arquitetado por Tim Cook para Steve Jobs, o mau patrão, é exatamente semelhante.

Tinha gente que se achava esperta ganhando dinheiro no mole nos Estados Unidos explorando, aqui e ali, condições de trabalho na China que, em casa, os meteria na prisão. Mas isso já tinha se tornado uma commodity. Mortos os concorrentes mais “patrióticos” e “moralistas”, todos os que tinham sobrevivido eram igualmente “modernos”. Explorar miseráveis chineses já não era mais um fator definitivo de sucesso.

Era preciso “inovar”.

O obcecado Jobs tinha o homem certo para o momento certo. E sentiu que esse momento chegara. Lá se foi Tim Cook para a China para descobrir onde estavam as “novas oportunidades de aprimoramento de gestão e ganhos de escala” sobre a miséria chinesa.

A China é um país novo, apenas emergindo do pesadelo maoísta que, debaixo de porrada, levou aquele quarto da humanidade de volta para a idade média sob o aplauso entusiasmado de boa parte da inteligentsia ocidental. Zero de industrialização. Tudo por fazer; nada por reformar.

“É isso“, pensou Tim!

Depois de espremida a laranja até ao bagaço dentro dos limites das legislações de trabalho civilizadas, o Ocidente andava, ultimamente, apertando parafusinhos nas cadeia de fornecimento para obter pequenas vantagens competitivas. Mas a coisa acabava batendo sempre na dispersão das estruturas existentes e na dificuldade e no custo de reorganizá-las.

Na China não. Onde antes não havia nada não era preciso derrubar para construir ou deslocar para abrir espaços. E, especialmente, não era necessário perder muito tempo fazendo contas. Lá estava o Estado chinês e seus ávidos e todo poderosos funcionários, fiscais de si mesmos, para pagá-las quaisquer que fossem.

Tem mais que um dedinho da Apple essa Chengdu, no Sudoeste da China, onde brotou do chão o maior, mais rápido e mais sofisticado “polo de manufaturas” do planeta Terra.

Ali pode-se realizar o sonho de todo fazedor de contas ambicioso: uma fabricazinha para cada componente, umas vizinhas das outras, com centros de montagem espargidos pelo meio, alimentando-se mutuamente com transporte e estoque zero; uma força de trabalho sem nenhum direito constituído, flexível o suficiente para ser jogada pra lá e pra cá, a qualquer hora do dia ou da noite, para atender milimetricamente, para cima ou para baixo, as flutuações da demanda.

E tudo pago a preço vil.

Maravilha!

Mas o melhor ainda estava por vir. Como a rede de fornecedores e de fornecedores dos fornecedores constituía-se para atender a um único cliente – a Apple – este ficava com a faca e o queijo na mão.

No primeiro ano as coisas corriam conforme o combinado. Mas a cada renovação de contrato, Steve Jobs arrancava mais 10% de seus “parceiros”.

“Não gostou? Ok. Procure outro comprador. Ou feche as portas” (os diálogos são imaginários).

Espremidos contra a parede, toca cortar custos.
E foi se desenhando o quadro que o New York Times descreveu numa série de matérias publicadas na semana passada):
•fabricas com até um milhão de operários trabalhando seis dias por semana sem sair de dentro da fábrica, dormindo amontoados em quartinhos, quase celas;
•cartazes “à la Aushwitz” dominando os salões de montagem: “Trabalhe duro na tarefa de hoje ou você terá de trabalhar duro para arranjar outro trabalho amanhã“;
•“castigos” para quem chega atrasado à sua bancada variando entre “escrever autocriticas”, copiar centenas de vezes a mesma frase ou fazer flexões no chão da fábrica;
•casos comprovados de “trabalho involuntário” (prisioneiros do regime, talvez?);
•instalações muito mais que precárias, cada vez mais inseguras: repetem-se em escala crescente as explosões, com mortos e queimados, de salões de montagem sem ventilação pela acumulação de pó de alumínio (do seu lindo iPad);
•empregados envenenados pela substituição de álcool pelo ultra cancerígeno n-hexano, que evapora três vezes mais rápido, na limpeza das telas dos iPhones montados (mais iPhones limpos por pulmão intoxicado);
•salários de fome;
•exploração de menores…

A lista segue em frente.

Sob pressão de ativistas chineses, ONGs dos próprios Estados Unidos e até de organismos do Banco Mundial, a Apple, durante anos, finge que não é com ela. Quando percebe que não dá mais, institui comissões e relatórios anuais de “responsabilidade social” e “normas mínimas de segurança e condições de trabalho. Mas, alegando a necessidade de segredo industrial, não revela a sua lista de fornecedores.

Depois da onda de suicídios na Foxconn, cede e “revela” o nome de 156 deles. Reporta punições cosméticas contra alguns deles. Mas os casos de envenenamento e as explosões se multiplicam nos fornecedores desses fornecedores, ainda “secretos”…

“Se você se depara com os mesmos problemas nos relatórios, ano após ano, é porque a companhia os está ignorando em vez de tentar resolvê-los“, diz um funcionário graduado da Apple pedindo anonimato.

Em compensação os números da companhia são estonteantes. Steve Jobs brilha. É tão bom para inventar e desenhar quanto é para gerir. Eu mesmo caí no logro. A Apple desliza de braçada por sobre o lodo da miséria chinesa, até chegar ao fantástico lucro de US$ 13,06 bilhões de dólares sobre US$ 46,3 bilhões em vendas em um único trimestre anunciados na semana passada.

São esses números que provocam reuniões sem fim entre os concorrentes e a fila crescente dos “I wanna be Apple” pelo mundo afora: “Então, seus incompetentes! Cadê a sua performance? Não me venham com desculpas românticas. Eu quero é a satisfação dos acionistas“.

É o grito da dupla Cook/Jobs para o lumpen chinês, voltando como um eco maldito para o lugar de onde partiu. E dezenas, centenas de milhões de trabalhadores com direitos vão para a rua da amargura com a substituição da onda “monte seu produto na China” pelo tsunami do “exporte toda a sua cadeia de produção para a China“.

“Voltar atrás significaria deter o ritmo da inovação“.

A frase cínica que Steve Jobs usou para se defender num seminário onde era acusado de explorar a miséria alheia pouco antes de morrer, é a mesma que, de mr. Kim Dotcom, o megauploader de mercadoria roubada, ao MIT, passando pelo Google, os ingênuos e os habitantes do lado escuro de Silicon Valley repetem sempre que se lhes aponta as vergonhas desnudas.

“E não é isso o capitalismo?“
Não. Não é isso o capitalismo.

O capitalismo democrático (que antes não precisava ser adjetivado porque não havia outro que lhe pudesse fazer frente, a não ser o capitalismo bandalho que se diz capitalismo mas apenas bandalho é) é, precisamente, o sistema que coloca em campos opostos e nitidamente delimitados o Estado e o capital privado, cabendo ao primeiro fiscalizar o segundo e dizer-lhe, em nome do coletivo, até onde ele está autorizado a crescer, mesmo que jogando inteiramente dentro das regras do jogo.

O capitalismo democrático é aquele que sabe o perigo que o homem é.

É um corolário da democracia, invenção que muito poucos desfrutaram e que chegou ao auge com a criação da legislação antitruste feita para não permitir que nenhuma empresa se tornasse “grande demais para quebrar”, mesmo que por merecimento.

Este, da China, o capitalismo de Estado, requer escravos e não trabalhadores.
O fato da internet ter permitido que as ambições que antes estavam contidas por legislações antitruste nacionais hoje escapem delas para ir viver os bons tempos da lei da selva alhures prova apenas que a tal “inovação” que eles tanto invocam para justificar a sua sede de suor alheio não altera rigorosamente nada o pendor do homem de explorar o homem, se isto lhe for permitido.

 
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Publicado por em 30 de Janeiro de 2012 in devida comédia

 

Jornalismo com…e sem Paixão

 
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Publicado por em 30 de Janeiro de 2012 in devida comédia

 

Feteira por Nuno Ramos de Almeida

Aqui vos deixo, na íntegra, o artigo publicado no jornal «i» do último sábado.

LÚCIO FETEIRA / Um super-homem português esquecido
Se neste país houvesse televisão a sério, a história dos Feteiras já estava a ser usada para fazer uma série ou uma telenovela. Nuno Ramos de Almeida fala de um livro fantástico sobre uma história perdida no tempo.

Se não fosse a acção determinada de Duarte Lima, a vasta maioria dos portugueses não saberia que existiu um
Lúcio Feteira. Com todos os seus defeitos, o advogado e antigo dirigente do PSD tem pelo menos isso a seu favor. O livro do jornalista Miguel Carvalho permite-nos descobrir uma história fascinante, que vai muito além do assassinato, por autor eventualmente conhecido, de Rosalina Ribeiro, secretária e íntima do milionário, no fatídico dia 8 de Dezembro de 2009.

Para pagar tributo à actualidade, o autor começa com Rosalina e Duarte Lima, mas na obra isto não passa disso, de um tributo. Um dos amigos de Lúcio Feteira era o milionário e magnate da comunicação social Assis Chateaubriand, mais conhecido como Chatô. Numa das melhores biografias escritas em língua portuguesa, o jornalista Fernando Morais começa a história do biografado falando de como os seus antepassados índios cozinharam e comeram o bispo português Sardinha na foz do rio Coruripe, a 15 de Junho de 1556. Chatô tinha exigido que quem tivesse a audácia de lhe contar a história começasse por este episódio. Fernando Morais faz-lhe a vontade, mas o resto da vida do milionário brasileiro é ainda mais fascinante. O mesmo se passa com o livro “Lúcio Feteira, Uma História Desconhecida”, de Miguel Carvalho: o autor ao contar o crime de que é vítima a amante do industrial português dá-lhe um gancho de actualidade, mas aquilo que se segue nas 250 páginas seguintes é muito mais fantástico.

O que espanta na história da família originária de Vieira de Leiria é a nossa ignorância. A epopeia dos Feteira é uma telenovela real em que desfilam muitos dos acontecimentos da história contemporânea. Lúcio Feteira constrói um império e ganha uma enorme fortuna. Trabalha em muitos países. Conhece intimamente o poder em Portugal e no Brasil e envolve-se profundamente nos acontecimentos do século XX. Um império que tem as suas fundações em Vieira de Leiria. Segundo Lúcio, o avó chega a Vieira de Leiria de carroça, fugindo do sítio em que nascera. Por causa de um comentário herético, de uma crítica ao dízimo das favas à Igreja. Depois de ver a casa ser queimada pela população, foge. O pai de Lúcio, Joaquim Tomé, vai herdar o segredo da produção de limas industriais deste avó. “O povo, ou uma parte dele, atribuía a Joaquim pactos
secretos com divindades ocultas”, escreve Miguel Carvalho, para conseguir uma têmpera das limas nunca vista. O êxito delas salta fronteiras e as limas dos Feteiras são vendidas um pouco por todo o mundo.

Joaquim Tomé Feteira tem 12 filhos. A história dos irmãos de Lúcio Feteira, abordada nos primeiros capítulos do livro, dava só por si uma telenovela em horário nobre. O irmão mais velho, Joaquim Tomé de Carvalho Feteira, nascido em 1880, de feitio insubmisso, emigra para a América. Chega a chefe de secção da electricidade nas obras de construção do canal do Panamá. Anarquista por convicção, cansado de esperar que fossem criadas condições de trabalho mínimas para os operários da obra, participa numa conspiração para matar à bomba os principais directores do projecto. É denunciado e condenado à morte.

Com as suas influências políticas, consegue a comutação da pena. Expulso, atravessa todo o continente: as florestas, os Andes e o Brasil. Chega a Porto Velho, no estado brasileiro da Rodônia. Apoia a população no conflito com a companhia que constrói aquilo que ficará conhecida como a Ferrovia do Diabo. É preso e torturado pela polícia. Desafia os seus algozes dizendo: “A um português como eu não se bate. Mata-se.” Morre com 42 anos, poucos dias depois de ser libertado.

Um percurso diametralmente oposto terão a maior parte dos irmãos, sobretudo Albano Feteira, que comanda as
fábricas da família e reina como senhor feudal sobre as gentes de Vieira de Leiria. Exige direito depernada sobre as mulheres da terra e persegue os operários que se revoltam contra as duras condições de trabalho. “Não admitia uma mulher que não fosse dele”, conta-se na família.

Adepto do regime, colabora com a PIDE na denúncia e na prisão dos activistas sindicais. Impõe um regime de escravatura nas suas fábricas. Durante a guerra civil de Espanha quando uma cidade caía nas mãos das tropas franquistas, mandava pintar um pinheiro com os dizeres: “Arriba España!” Pela calada da noite, os operários comunistas secavam ou cortavam as árvores. E escreviam nelas: “‘abaixo o fascismo’.” Durante algum tempo, Albano andou desconfiado que alguma doença atacava as árvores…

Mas não só da política se alimenta a verdadeira telenovela da vida dos Feteiras. Como em qualquer boa narrativa, os amores trágicos também estão presentes. A irmã Olímpia tenta casar duas vezes. Duas vezes os noivos morrem antes de chegar ao altar. À terceira é de vez, mas poucos dias depois é Olímpia que adoece e morre de tifo. As histórias da família são uma espécie de aperitivo do livro em que a vida de Lúcio Feteira é o prato principal.

A única fraqueza da obra é ter poucas páginas para desenvolver a história. Miguel Carvalho escolheu assinalar a epopeia, mas ainda não explorou tudo aquilo que ela vai certamente dar. A pressa de editar
um muito bom livro tolheu a possibilidade de fazer um excelente.

Lúcio Feteira sai em jovem de Vieira de Leiria. Os irmãos tomavam todos os lugares das empresas da família. Vai para Angola, onde conhece o general Norton de Matos, então governador de Angola, e o falsário Alves dos Reis, que tinha construído centenas de quilómetros de caminho-de-ferro com notas falsas. No fim da vida, Lúcio, nas suas memórias, garantia que tinha sido Alves dos Reis que tinha “salvo o país da falência”. Durante sete anos trabalhará no Congo no negócio dos cafés e gastará o dinheiro em Paris. No Congo, safa-se à justa de ser comido por canibais, que, afiança mais tarde, lhe “comiam os empregados todos”. Ganha a sua primeira fortuna. Por duas vezes está às portas da morte. Duas vezes lhe dão a extrema-unção. Um padre pergunta-lhe: “Meu filho és católico?” Responde prontamente: “Senhor padre, sou português.
Em Portugal somos todos católicos.”

Safa-se e vai gastar toda a fortuna em Paris numa vida de luxo e mulheres. Obrigado a regressar à terra. Começa atrabalhar nos negócios da família. Quer casar com a filha do homem mais rico da terra. Ameaça suicidar-se para que ela o aceite. Depois de casado, pede ao sogro um empréstimo de 3 mil contos para se
lançar no negócio do vidro. A contragosto, o sogro passa-lhe o cheque. Reza a lenda que, de pronto, Lúcio lhe acrescenta um número, transformando o valor em 13 mil contos. É com esse expediente que faz a Covina, que vai revolucionar a produção de vidro em Portugal. Homem do regime, chega a ser escolhido para presidente da junta de freguesia da terra.

Depois da ida para o Brasil, onde expande os seus negócios, mantém uma relação dúbia com a ditadura portuguesa. Aparece ora com o regime, ora a apoiar a candidatura oposicionista do general Norton de Matos. Financia uma tentativa de golpe em Abril de 1947. Vigiado pela PIDE, vai para o Brasil. Só regressará nos anos 50. Com uma vida sentimental atribulada, tem um filho do casamento e outro fora dele. Morre no ano 2000. A sua vida dava pelo menos um filme.”

 
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