Aqui vos deixo, na íntegra, o artigo publicado no jornal «i» do último sábado.
“LÚCIO FETEIRA / Um super-homem português esquecido
Se neste país houvesse televisão a sério, a história dos Feteiras já estava a ser usada para fazer uma série ou uma telenovela. Nuno Ramos de Almeida fala de um livro fantástico sobre uma história perdida no tempo.
Se não fosse a acção determinada de Duarte Lima, a vasta maioria dos portugueses não saberia que existiu um
Lúcio Feteira. Com todos os seus defeitos, o advogado e antigo dirigente do PSD tem pelo menos isso a seu favor. O livro do jornalista Miguel Carvalho permite-nos descobrir uma história fascinante, que vai muito além do assassinato, por autor eventualmente conhecido, de Rosalina Ribeiro, secretária e íntima do milionário, no fatídico dia 8 de Dezembro de 2009.
Para pagar tributo à actualidade, o autor começa com Rosalina e Duarte Lima, mas na obra isto não passa disso, de um tributo. Um dos amigos de Lúcio Feteira era o milionário e magnate da comunicação social Assis Chateaubriand, mais conhecido como Chatô. Numa das melhores biografias escritas em língua portuguesa, o jornalista Fernando Morais começa a história do biografado falando de como os seus antepassados índios cozinharam e comeram o bispo português Sardinha na foz do rio Coruripe, a 15 de Junho de 1556. Chatô tinha exigido que quem tivesse a audácia de lhe contar a história começasse por este episódio. Fernando Morais faz-lhe a vontade, mas o resto da vida do milionário brasileiro é ainda mais fascinante. O mesmo se passa com o livro “Lúcio Feteira, Uma História Desconhecida”, de Miguel Carvalho: o autor ao contar o crime de que é vítima a amante do industrial português dá-lhe um gancho de actualidade, mas aquilo que se segue nas 250 páginas seguintes é muito mais fantástico.
O que espanta na história da família originária de Vieira de Leiria é a nossa ignorância. A epopeia dos Feteira é uma telenovela real em que desfilam muitos dos acontecimentos da história contemporânea. Lúcio Feteira constrói um império e ganha uma enorme fortuna. Trabalha em muitos países. Conhece intimamente o poder em Portugal e no Brasil e envolve-se profundamente nos acontecimentos do século XX. Um império que tem as suas fundações em Vieira de Leiria. Segundo Lúcio, o avó chega a Vieira de Leiria de carroça, fugindo do sítio em que nascera. Por causa de um comentário herético, de uma crítica ao dízimo das favas à Igreja. Depois de ver a casa ser queimada pela população, foge. O pai de Lúcio, Joaquim Tomé, vai herdar o segredo da produção de limas industriais deste avó. “O povo, ou uma parte dele, atribuía a Joaquim pactos
secretos com divindades ocultas”, escreve Miguel Carvalho, para conseguir uma têmpera das limas nunca vista. O êxito delas salta fronteiras e as limas dos Feteiras são vendidas um pouco por todo o mundo.
Joaquim Tomé Feteira tem 12 filhos. A história dos irmãos de Lúcio Feteira, abordada nos primeiros capítulos do livro, dava só por si uma telenovela em horário nobre. O irmão mais velho, Joaquim Tomé de Carvalho Feteira, nascido em 1880, de feitio insubmisso, emigra para a América. Chega a chefe de secção da electricidade nas obras de construção do canal do Panamá. Anarquista por convicção, cansado de esperar que fossem criadas condições de trabalho mínimas para os operários da obra, participa numa conspiração para matar à bomba os principais directores do projecto. É denunciado e condenado à morte.
Com as suas influências políticas, consegue a comutação da pena. Expulso, atravessa todo o continente: as florestas, os Andes e o Brasil. Chega a Porto Velho, no estado brasileiro da Rodônia. Apoia a população no conflito com a companhia que constrói aquilo que ficará conhecida como a Ferrovia do Diabo. É preso e torturado pela polícia. Desafia os seus algozes dizendo: “A um português como eu não se bate. Mata-se.” Morre com 42 anos, poucos dias depois de ser libertado.
Um percurso diametralmente oposto terão a maior parte dos irmãos, sobretudo Albano Feteira, que comanda as
fábricas da família e reina como senhor feudal sobre as gentes de Vieira de Leiria. Exige direito depernada sobre as mulheres da terra e persegue os operários que se revoltam contra as duras condições de trabalho. “Não admitia uma mulher que não fosse dele”, conta-se na família.
Adepto do regime, colabora com a PIDE na denúncia e na prisão dos activistas sindicais. Impõe um regime de escravatura nas suas fábricas. Durante a guerra civil de Espanha quando uma cidade caía nas mãos das tropas franquistas, mandava pintar um pinheiro com os dizeres: “Arriba España!” Pela calada da noite, os operários comunistas secavam ou cortavam as árvores. E escreviam nelas: “‘abaixo o fascismo’.” Durante algum tempo, Albano andou desconfiado que alguma doença atacava as árvores…
Mas não só da política se alimenta a verdadeira telenovela da vida dos Feteiras. Como em qualquer boa narrativa, os amores trágicos também estão presentes. A irmã Olímpia tenta casar duas vezes. Duas vezes os noivos morrem antes de chegar ao altar. À terceira é de vez, mas poucos dias depois é Olímpia que adoece e morre de tifo. As histórias da família são uma espécie de aperitivo do livro em que a vida de Lúcio Feteira é o prato principal.
A única fraqueza da obra é ter poucas páginas para desenvolver a história. Miguel Carvalho escolheu assinalar a epopeia, mas ainda não explorou tudo aquilo que ela vai certamente dar. A pressa de editar
um muito bom livro tolheu a possibilidade de fazer um excelente.
Lúcio Feteira sai em jovem de Vieira de Leiria. Os irmãos tomavam todos os lugares das empresas da família. Vai para Angola, onde conhece o general Norton de Matos, então governador de Angola, e o falsário Alves dos Reis, que tinha construído centenas de quilómetros de caminho-de-ferro com notas falsas. No fim da vida, Lúcio, nas suas memórias, garantia que tinha sido Alves dos Reis que tinha “salvo o país da falência”. Durante sete anos trabalhará no Congo no negócio dos cafés e gastará o dinheiro em Paris. No Congo, safa-se à justa de ser comido por canibais, que, afiança mais tarde, lhe “comiam os empregados todos”. Ganha a sua primeira fortuna. Por duas vezes está às portas da morte. Duas vezes lhe dão a extrema-unção. Um padre pergunta-lhe: “Meu filho és católico?” Responde prontamente: “Senhor padre, sou português.
Em Portugal somos todos católicos.”
Safa-se e vai gastar toda a fortuna em Paris numa vida de luxo e mulheres. Obrigado a regressar à terra. Começa atrabalhar nos negócios da família. Quer casar com a filha do homem mais rico da terra. Ameaça suicidar-se para que ela o aceite. Depois de casado, pede ao sogro um empréstimo de 3 mil contos para se
lançar no negócio do vidro. A contragosto, o sogro passa-lhe o cheque. Reza a lenda que, de pronto, Lúcio lhe acrescenta um número, transformando o valor em 13 mil contos. É com esse expediente que faz a Covina, que vai revolucionar a produção de vidro em Portugal. Homem do regime, chega a ser escolhido para presidente da junta de freguesia da terra.
Depois da ida para o Brasil, onde expande os seus negócios, mantém uma relação dúbia com a ditadura portuguesa. Aparece ora com o regime, ora a apoiar a candidatura oposicionista do general Norton de Matos. Financia uma tentativa de golpe em Abril de 1947. Vigiado pela PIDE, vai para o Brasil. Só regressará nos anos 50. Com uma vida sentimental atribulada, tem um filho do casamento e outro fora dele. Morre no ano 2000. A sua vida dava pelo menos um filme.”

Figura surpreendente e mirambolante. Simpatizo com o personagem que é dinâmico e não é extremo nas convicções plo regime e até o é na oposição ao último. Obrigado plo seu artigo e fica claro que vou ler o livro. Pedro