Dornelas. Os montes no Le Monde

O João Pedro Marnoto é um dos grandes fotógrafos portugueses da actualidade (Porto, 1975). Pena, como sempre, que por cá não se repare muito nisso. Uma rápida passagem pelo seu site (www.jpmarnoto.com) basta para perceber o talento e um olhar muito pessoal sobre a nossa identidade. Agora, uma das extraordinárias fotografias do João Pedro foi publicada, em grande destaque, no último magazine de fim-de-semana do diário francês Le Monde. E adivinhem onde foi ele buscar o têmpero para a inspiração? A Couto de Dornelas, aldeia do concelho barrosão de Boticas. O momento é o da Mesinha de São Sebastião, uma celebração que quem visita não esquece, alimento do corpo e do espírito entre gente sã, valente e genuina. Ontem, o João agradeceu-me ter-lhe um dia contado a história deste lugar no interior nortenho, encravado entre um progresso sem freio e uma desertificação criminosa. Mas eu é que lhe agradeço este olhar, esta vontade férrea que ele tem de trilhar os caminhos de um povo que não se rende nas suas tradições e identidades. Santos da terra, já se sabe, não fazem milagres. Talvez por isso, seja mais fácil o pão e as gentes de Dornelas chegarem dignos e honrados pelo olhar do João Pedro às páginas nobres do Le Monde do que a algumas folhas de couve editadas por excelentíssimos asnos da modernidade. E da vulgaridade.

Para conhecerem Couto de Dornelas, deixo-vos com a reportagem que escrevi há uns anos para a Visão e foi publicada no meu livro «Aqui na Terra».

A celebração
(título original: «E a Gália aqui tão perto»)

Dornelas não é Minho, nem é Barroso.
«É terra de ninguém», dizem os de cá. Com leis próprias.
Chega-se a estas paragens por Cabeceiras de Basto, sempre às curvas.
Em tempos idos, toda a cáfila de criminosos, foragidos e assaltantes vinha cá parar à sombra do privilégio régio de um nobre cavaleiro.
Aires, de seu nome, raptou uma dama da corte de Afonso Henriques e fez de Dornelas couto e pousio, povoando-a e erguendo capela.
Todos os que a ela se acoutassem não podiam ser presos nem punidos pela justiça do rei. E foram ficando.
A terra, com pouco mais de 500 almas, gosta de levar a história a peito.
Politicamente, Dornelas resiste ainda e sempre ao invasor.
Em 2006, era ainda a única freguesia do concelho de Boticas que não é coutada do PSD, mas sim de uma lista de independentes presidida, há vários mandatos, por Xavier Barreto, homem de 29 anos, tocador de bombardino na banda filarmónica local e boa disposição em figura de gente. «Isto aqui é a Gália e sou eu que tenho o segredo da poção mágica», garante, galhofeiro, dando as boas-vindas e lamentando não ter Astérix ou Obélix ali à mão para ilustrar o que diz.
Da Câmara não vem um cêntimo para a banda, escola de música ou outras urgências a bem da terra.
Mas Xavier vai ganhando as eleições. Seja por quatro, treze ou quinze votos.
Quem tem António Loiro, «o homem das sondagens», pelo seu lado, não precisa temer.
«Se eu sonhar com pastagens na noite anterior às eleições, é certinho e sabido que ganhamos», conta o próprio.
Foi o caso.
As eleições de 2005 deram a Xavier um gozo pegado: o PSD foi a França buscar perto de 70 emigrantes para tentar inverter a história e pôr fim à rebeldia de Dornelas.
Mas as contas saíram furadas.
Sabendo do preparo camarário da desfeita, vieram outros no encalço, lá da terra dos franciús, repor a tradição nos boletins de voto. Comunitária do forno aos afectos, Dornelas não se ensaia nada em assar um vitelo para a assinalar o feito. Tudo por conta da brigada voluntária que se meteu no avião «lá na estranja». E assim manteve inviolável a terra que, no dizer do presidente da Junta, «acredita no Cristo e nos santos, mas não tem fé nenhuma em Deus e nos padres.»

Ora, nos últimos anos, Dornelas desafiou também quem manda nas alturas.
E os seus representantes na terra.
O padre e os paroquianos desentenderam-se por causa de São Sebastião, mas a isso já lá vamos, que a história é mesmo de bradar aos céus. Chegou até à barra do tribunal.
Enquanto a procissão vai no adro, explique-se: a festa rija em honra do santo que a lenda diz ter protegido o povo da fome, peste e guerra trazidas pelas invasões francesas celebrava-se, sem mácula, a 20 de Janeiro.
Celebrava-se e celebra-se, pois este ano não ia ser excepção, nem que o sagrado tossisse.
A ela acorre gente das redondezas e de variadas lonjuras.
São aos milhares os excursionistas de talheres e garrafão à cata da oferenda de carne, arroz e pão.
Tudo disposto ao longo de uma mesa estreita com toalha de linho que, neste ano, teve 500 metros de comprimento. Começando no centro da terra e acabando encosta acima.
Ornamentaram o banquete 400 quilos de carne de porco, cem quilos de arroz e 1012 pães de milho, centeio e trigo – de dois a três quilos cada um – custeados pelos indígenas e propiciando tal sinfonia de maxilares e lamber de beiços que até o Diabo se riu. Melhor fora que não o fizesse, pois, como diz avisada voz anciã, «estas gentes comem o Inferno e quantos diabos lá há.»
Tudo estaria nos eixos, não fosse o amuo com o divino, na sua forma terrena de batina, carne e osso.
Diz-se que o padre teima em tomar conta da «Casa do Santo», da festa e das oferendas a São Sebastião, argumentando que a Igreja é dona e senhora da casa e Deus, nas alturas, da celebração religiosa.
A população tem outra partitura para o diferendo: diz-se proprietária da dita «Casa do Santo», construída a expensas de alguma da gente mais pobre da terra e lamenta-se de, em anos anteriores, ter de pagar o equivalente a 225 euros ao pároco «por duas horas de missa, procissão e bênção dos alimentos.»
Se o padre não serve para unir as gentes desavindas, «que se foda lá ele e mais a religião dele», desabafa-se, a quente.
O presidente da Junta, porém, tentou levar a coisa por bom caminho.
Escreveu carta à diocese de Vila Real pedindo outro pároco para honrar as festividades que aí vinham.
«A vontade unânime do povo» da freguesia foi entendida na hierarquia local da Igreja como desfaçatez.
Que não se metesse ele nos assuntos religiosos, foi a recomendação assinada pelo vigário-geral. «Não o deve fazer pelos mal-entendidos que arrasta consigo, usurpando uma competência do Pároco e da Fabriqueira Paroquial canonicamente erecta.»
Qualquer correspondência futura, será, pois, entendida como arrogância.
«Este padre só nas parafundas dos infernos com um camião de torgos a arder. Ele até dá vontade de pecar!», lamenta-se Maria Celeste Pedreira, mais devota da terra do que de outras divindades.
Nada a fazer.
O padre voltou a fechar o santo na Igreja a sete chaves, mas a réplica comprada por mais de 600 euros com o contributo do povo compareceu à chamada.
No resto, o cerimonial manteve-se.

À meia-noite, na dita «Casa do Santo», São Sebastião, cravejado de setas, assistiu aos preparativos. Nessa altura, já o pão – do qual se diz ter propriedades curativas não se sabe bem de quê – repousava em filinhas distribuídas por seis estantes.
No meio do potedo, junta-se lenha e a carqueja que dará, noite fora, labareda de fazer bufar os potes e quase derreter as lâmpadas.
A cozedura da carne ganha lume sério a partir das cinco da manhã.
João Barreto, um dos mordomos, coordena as operações enfrentando o fumo. Umas horas adiante hão-de chegar mais homens e mulheres como Soledade Santos que, aos 63 anos, se junta a outras da sua idade e mais novas, para peneirar madrugada dentro e até o sol se finar, haja bocas ciosas de comeres.
A carne coze nos potes.
Pela manhã, os primeiros nacos de pão e carne são o pequeno-almoço de quem trabalha.
A sopa de arroz, feijão, massa e cebola borbulha na água da cozedura da carne e é servida antes que tudo comece.
O arroz vai aos potes na mesma água que cozeu a carne.
Ao meio-dia, já o povo atulhou a «Casa do Santo», assistindo aos últimos preparativos.
De Igreja trancada, santo detido e padre às avessas, a réplica de São Sebastião dá as boas-vindas aos visitantes e agradece as oferendas.
Da capela situada à entrada da terra sai então a procissão.
A cena é fellinesca.
Não há padre, nem beatice pegada.
Zé, «o mudo», está paramentado e leva o santo.
Uns galegos trotamundos, vindos de Lugo para fazer roteiros turísticos, tiram fotografias.
«Bendito Sebastião, sende o nosso protector», cantam as mulheres, enquanto outras vão rosnando, de ciúme: «Enganam toda a gente.»
A procissão desce, lenta, até ao centro do povo.
À sua passada, os homens param de lascar o presunto, enquanto tiram o chapéu, em sinal de respeito.
Na «Casa do Santo», Leonel, um dos mordomos, faz as vezes do padre: benze o pão, a carne e o arroz.
«E que nos sirva de remédio para o corpo e para a alma.»
O presidente da Junta monta uma banca à porta da «Casa do Santo», com computador portátil e colunas de som a debitar a música da banda da terra.
Vai começar a vender o conjunto de garfo, faca, colher e canivete com carimbo de Couto de Dornelas, seis euros cada.
Segue-se o repasto, ao ar livre, por entre cantares e pândega. Pede-se esmola para o mártir.
«Vamos lá rapaziada, puxem por essas carteiras.»
Tabuleiros de arroz vêm e vão a uma velocidade estonteante.
De olhos arregalados e mãos besuntadas erguem-se malgas de vinho.
Ao povo, junta-se Alberto, moçambicano, ali radicado há 34 anos, «um dos melhores tocadores de tuba de Trás-os-Montes e arredores.»
O Xáxá de Boticas, João Ferreira, outrora «um dos melhores lançadores de malha da região», figura popular e atrevidota, quase cego, vai dizendo:
«Isto não é uma festa, é uma recordation
Na terra – à qual, em tempos, chamaram «freguesia vermelha» – bebe-se, come-se, canta-se e ri-se. Religiosamente.
Se o profano é isto, remédio santo!

A receita II

Ainda bem que a asuteridade está a resultar. Imaginem que não resultava.

Dívida aumenta 5670 milhões de euros desde a intervenção da troika
06/02/2012 | 11:37 | Dinheiro Vivo

Entre o segundo e o terceiro trimestre de 2011, a dívida pública portuguesa aumentou de 184,03 para 189,7 mil milhões de euros, representando agora 110,1% do Produto Interno Bruto (PIB) nacional.

O principal responsável por este aumento da dívida pública é um crescimento da rubrica “empréstimos” que está nos 33,3% do PIB. No final de 2010, estava nos 12,4%. O montante remanescente da dívida está distribuído por depósitos (6,2% do PIB) e títulos mobiliários (70,6%).

Um ano antes, no terceiro trimestre de 2010, a dívida pública portuguesa representava 91,2% do PIB. No final de 2008, estava nos 71,6%.

Apesar de o programa de ajustamento da troika já estar em campo e o défice português estar a cair, a dívida pública portuguesa continua a engordar. Segundo as estimativas, do FMI, em 2012, a dívida ainda irá aumentar para 116,3% do PIB e, em 2014, para 118,1%. 2014 será o primeiro ano de descida, caindo para 116%. Em 2016 continuará acima de 100% do PIB (111,7%).