Hesitei bastante antes de escrever este texto. Mas esgotados os envios de «currículo», atropelado, vezes sem conta, pelos esquemas da cunha, dos concursos públicos e outras impaciências, considerei que um post em nome de um amigo, profissional talentoso e sem mácula, não traria grande concorrência aos centros de emprego.
Não vou dizer o nome dele, claro. Já basta o nada que o consome.
Ele licenciou-se em Antropologia. Ele foi, até há pouco tempo, um técnico de excelência e um garimpeiro de gentes e experiências num dos bons museus deste País, onde deixou espólio da sua dádiva, do seu conhecimento e da sua capacidade para tricotar laços de humanidade. Concebeu exposições de sucesso, atividades e formações diversas, serviços educativos incluídos. Conservou, restaurou e dignificou colecções únicas, deixou uma levantamento arquivístico notável e um acervo de memórias vivas. Preservou vozes experientes, guardou o que as mãos também dizem de um tempo e de um trabalho. Escreveu sobre isso, cativou outros. Tratou, estudou e inventariou um património que resistiu a falências e desapegos. Na sua vida profissional, houve ainda tempo e espaço para trabalhos com comunidades imigrantes e rurais. Na sua vida, houve ainda tempo para se confrontar com a desavergonhada faceta de quem o atirou para o subsídio de desemprego, sem remissão. Por isso, se souberem onde ainda se abram portas para gente desta, calibrada nos afectos, numa dedicação incansável e numa competência e capacidade extraordinárias, avisem-me. Ele merece. E eu só descanso quando a vida for mais justa.

About these ads