Diário de um pai em construção – 31

Termina hoje a minha licença de paternidade. Digo já que é injusto. Garantem-me que, por essa Europa fora, há países onde esta condição de pai todo-o-terreno está mais dignificada e com prazos mais dilatados. Não fui ver, mas acredito. Devem ser países sem troika. Se me deixassem, eu poderia provar que consigo trabalhar, escrever e cuidar da criança sem que se notassem falhas nas minhas múltiplas responsabilidades. Juro. Era só fazer uns ajustes e ninguém dava por isso. Nem todos os empregos o permitem, eu sei, mas não tenho culpa de estar onde estou e acreditar que chego para as encomendas e sem falhar prazos entre um texto e uma muda de fraldas. Sei que há sítios onde alguns vão todo o dia fazer de conta que trabalham. Uma indecência, claro. Eu, por exemplo, podia fazer de conta que estava no local de trabalho e garanto que ninguém me acusava de falta de produtividade.

Não se faz isto a uma mãe nem a um pai. No último mês, a Segurança Social permitiu-me o esplendor e agora manda-me trabalhar. Devia dar-nos um tempo para a gente se desabituar, uma espécie de programa de desintoxicação ou algo assim. Durante esse tempo, eu convivi todos os dias com os sorrisos mais ternos, vi nascer o dobrar das gargalhadas, a passagem do biberão para a papa e o pote de fruta, troquei olhares cúmplices com a mãe, ambos babados com novas habilidades e mimos, e deixei que as lágrimas me escorressem pela cara abaixo quando ele adormecia a olhar para mim, sorrindo a cada «amo-te muito» que eu lhe sussurrava entre os lençóis. Nestas semanas, tentei não perder cada novidade, os gestos, os sons e até os sonos (sim, quando se tem um tesouro destes, é grande a vontade de contemplá-lo na penumbra, mesmo quando ele dorme a sono solto). Inventei músicas, brincadeiras e estratégias para o ter sempre colado ao que somos. E vamos construíndo. E agora, dizem-me, vais trabalhar (como se eu alguma vez tivesse deixado de fazê-lo).

Esta segunda lá estarei de volta à labuta. Com arrobas nas costas e quilos de mágoa na alma. Longe dele até ao final do dia, chorando por dentro e, se calhar por fora. Eu sei que isto nos macera o coração, mas depois habituamo-nos. Só que eu não queria habituar-me. Eu quero, simplesmente, ser todos os dias e todas as horas, pai-jornalista-sopeira e ser feliz com isso. Eu consigo. Pode ser?

Y viva España

Baltazar Garzón, o «super-juiz» espanhol (Pinochet, Guantánamo, etc), foi condenado pelo Supremo Tribunal a um desterro de 11 anos de funções judiciais por causa de ter autorizado escutas entre arguidos e os seus advogados numa investigação relacionada com uma rede de corrupção política envolvendo o PP. A sentença diz que Garzón utilizou métodos típicos «de um regime totalitário». Pergunta ingénua: como é que nunca repararam nisso quando valeu tudo para Garzón investigar e tentar desmantelar a ETA? Ah, pois, os terroristas, claro…