A vida secreta das palavras
História breve de Rui Costa. Por entre luzes e sombras da sua morte misteriosa e um percurso literário vadio e insubmisso.
Por Miguel Carvalho
Rui Costa desapareceu deste mundo quando os seus últimos versos vieram ao mundo. Vida e morte não marcaram hora nem lugar, mas encontraram-se a 5 de janeiro. Ao mesmo tempo que família e amigos estranhavam o pesado silêncio do escritor, as 40 páginas de Breve Ensaio sobre a Potência cortadas e agrafadas pela madrugada numa casa de Lisboa, abraçavam poemas novos. «E assim ensaiamos o livro entre a treva e a luz, o coração despedaçado rasgando novos arquipélagos», lê-se na estrofe final do livro publicado pela Língua Morta, pequena editora de culto, dias antes de se confirmar o falecimento do autor, natural do Porto, aos 39 anos.
Culto era o que havia à volta dele e o reconhecimento ultrapassava já os circuitos marginais, por onde Rui adorava vaguear, qual gato vadio. Agraciado, na estreia, com o Prémio de Poesia Daniel Faria, em 2005, pelo esgotadíssimo A Nuvem Prateada das Pessoas Graves (Quasi), Rui venceria também o Prémio Albufeira de Literatura, em 2007, com o romance A Resistência dos Materiais (Exodus). Publicou ainda O Pequeno-Almoço de Carla Bruni (Palavra Ibérica), As Limitações do Amor são Infinitas (Sombra do Amor) e organizou, em co-autoria, a Primeira Antologia de Micro-Ficção Portuguesa (Exodus). Peças de teatro, traduções, textos dispersos por publicações nacionais e estrangeiras, têm o seu dedo. E haverá meia centena de escritos à espera de ver a luz do dia. Crítica literária e catedrática de literatura, Maria Alzira Seixo releva as suas «ficções poéticas, em que o amor se opõe à tirania, e a sombra de pavor e conivência que cobre a vida é iluminada por figuras de redenção. Numa escrita levíssima, que parece nem ter apoio no papel…». Na Babel, repousa o seu último romance, à espera de publicação. Os Diálogos de Adão e Eva é uma obra «de grande qualidade», reconhece Hugo Mendes, que o leu e aprovou antes de sair da editora em outubro, altura em que vários projetos foram suspensos «por razões financeiras».
Indomável e provocador
Viera a Portugal por altura das últimas festas natalícias. Voltara à sua casa de Gaia, onde noutras épocas a mãe lhe levava as refeições e alinhava a roupa que ele vestia. O regresso coincidiu com um intervalo no doutoramento em Saúde Pública, no Brasil, para onde Rui Costa se mudara há dois anos. Vivia no bairro de Santa Teresa, de forma algo espartana, rodeado de livros e discos, com um colchão no lugar da cama. «Na outra margem do rio maior…um lugar bacana no Rio com pássaros azuis e amarelos», como descreveu à amiga Marta Peneda, que lhe levara, há meses, garrafas de bom vinho português e As Palavras e as Coisas, de Foucault. Juntos, aventuraram-se na Rocinha pela mão de Castelo Branco, do Bando Cultural Favelados. Dançaram ao som de ritmos afro-brasileiros, trocaram experiências e Rui até prometeu juntar escritores de cá e de lá, fundindo talentos e projetos. «Pedimos por sua alma, que esteja em bom plano, e que de lá ele possa continuar nos ajudando», escreveu Castelo Branco, do outro lado do mar.
Licenciado em Direito, Rui Costa abandonara a área jurídica, farto da «sabujice e facadas nas costas» das sociedades de advogados e refractário às molduras e convenções. «A atitude dominante no universo é o conservadorismo e a subserviência», desabafou, numa tertúlia poética na livraria Trama, em Lisboa. Ele era outra farinha, nunca desse saco.
Ao contrário do que ocorrera anteriormente, desta vez Rui não avisou a maioria dos amigos da sua chegada do Brasil. Em anos recentes, passara o réveillon em casa de Rui Lage, poeta com quem mantinha amizade firme e cumplicidades. Agora, mudara até o número de telemóvel. De Espanha, a poetisa Dolors Alberola, desesperou. Integrado num ciclo de leituras poéticas em Jerez de la Fronteira, a 9 de janeiro, Rui Costa não respondia às tentativas de contacto desde 14 de dezembro.
O brasileiro Fred Ferraz teve mais sorte. Ainda jantou com o amigo no Calhambeque, no Porto, poiso de fervuras com sabor a comida de casa. «Acho o universo giro, sobretudo com umas boas sardinhas e um vinho verde muito frio à frente», dizia Rui, num dos seus repentes desconcertantes. Ele e Fred tinham em comum mais do que as guitarras no grupo Mana Calórica, projeto musical liderado por António Pedro Ribeiro, amigo de ambos. «Era um coração espetacular, um criador e um artista do mundo decidido a experimentar todos os tipos de arte. Com ele havia sempre festas e copos, mas neste regresso parecia triste com a vida».
Nada que causasse especial estranheza.
Quem o conhecia habituara-se a vê-lo desaparecer sem deixar rasto. Ora encantado por uma namorada nova – «Gosto de mulheres. Têm problemas no motor de arranque, mas são muito mais surpreendentes do que os homens» – ou entregue à urgência de recolhimento. «Se algum pensamento seu espalhasse a sua sombra à nossa volta, isso era a sua veia criativa a reclamar afastamento e retiro», recorda o amigo, também escritor, Fernando Esteves Pinto, para quem o convívio com o Rui «era uma festa».
Desta vez não foi.
Esteves Pinto prometera-lhe guarida na sua casa de Olhão até abalarem para o encontro poético, em Espanha. Mas a ausência de notícias deu lugar à angústia. Amigos mobilizaram-se nas redes sociais e em contactos pessoais. Soube-se depois que Rui fizera um levantamento num multibanco de Canidelo, em Gaia, na quarta, 4, à noite. Houve quem procurasse o carro numa valeta ou precipício, mas o veículo apareceria estacionado junto ao Edifício Mota Galiza, próximo da ponte da Arrábida, no Porto. Dentro do automóvel, o casaco de couro, o telemóvel e a carteira. O corpo, com as chaves de casa no bolso, foi encontrado mais tarde, na Afurada, onde as águas do Douro se enlaçam no mar. «Tudo me parece possível: um homem esbarra e cai ao rio, um homem é empurrado para um rio, um homem atira-se ao rio, um homem é atirado ao rio…», assinalou o escritor Henrique Bento Fialho no blogue Antologia do Esquecimento. Ali lembrou o amigo que levava o riso a rostos «onde só se vê seriedade, pedantismo e presunção».
«Pôr as coisas fora do lugar»
Era uma alma em desassossego, com «um olhar de infinito». Perfeccionista, «não se contentava com um verso qualquer», assinala Rui Lage, para quem a escrita de Rui Costa revelava «um poeta no sentido herbertiano, difícil, torrencial, metaforicamente rico». Queria, ele o disse, «pôr as coisas fora do lugar». Com a investigadora Margarida Vale de Gato, escreveu Desligar e Voltar a Ligar, peça de teatro levada à cena na Culturgest, «um exemplo do que podemos criar quando não nos acomodamos e recusamos a tolice e a conversa mole».
Noutros tempos, viam-no muito no Piolho, no Pinguim ou no Pucaro´s, o bar de Miragaia onde noites de poesia fizeram história. Valter Hugo Mãe descobriu aí um «homem demasiado inteligente para se ficar pela mediania das coisas», capaz de, «em cada livro, revelar sempre um excecional punhado de versos», recordou no Jornal de Letras.
Tinha momentos de rispidez e ternura. Doce ou intratável, levava o carimbo de arrogante ou provocador, consoante os amores e os humores de quem o ouvia, mas sempre com postura «despretensiosa e desprendida em relação ao seu trabalho como escritor», segundo Rui Manuel Amaral, fundador da revista literária Águas Furtadas e parceiro de almoços no Café Ceuta. «Um ser em contínua luta consigo mesmo, de grande generosidade, mas frágil, como se esse pessimismo às vezes lhe fizesse sombra e o vencesse», refere a poetisa espanhola Pepa Virella, que nele recorda «um grande mundo interior» e um «belo ser humano», preocupado com quem se enfrasca em antidepressivos quando, dizia, «tudo pode ser solucionado com mais diálogo e carinho».
Se algo o tirava do sério, os compadrios e as capelinhas literárias vinham à cabeça. Por isso, de forma desabrida, comprou a maior das suas «guerras», candidatando-se em 2009 à presidência do Pen Clube. Ao seu lado, Nuno Júdice, Rui Lage, Filipa Melo, Isabel Pires de Lima, Fernando Pinto do Amaral, entre outros. «Era franco, sincero, desafiador – e eu aprecio muito a franqueza, odeio delicadezas fingidas», reconhece Maria Alzira Seixo, vogal da lista. «Os votos foram contados duas vezes e a contagem não dava certa», exemplifica para ilustrar um processo ferido irregularidades. «Foi tudo transparente», garante Teresa Salema, que ganhou. «Mesmo com excessos, Rui Costa mexeu com mentalidades», reconhece a atual presidente.
Confiando nisso, Maria Alzira Seixo leu na assembleia-geral do Pen Clube, a 23 de janeiro, uma moção subscrita por ela própria, Vasco Graça Moura e membros da antiga lista. Manifestava-se «pesar pelo desaparecimento de Rui Costa» e «pela sua atividade no Pen». Os termos da moção foram rejeitados e substituídos por um simples voto de pesar. «Só me saem duques!», diria Rui, ao seu estilo, se cá estivesse.
(Publicado na última edição da Visão)

Isabel Branco
7 de Março de 2012 at 11:49
A minha humilde homenagem ao poeta RUI COSTA, no Programa DIZER POESIA:
http://soundcloud.com/misabelbranco/76-programa-rui-costa-dizer