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Paris – 14

06 Mar

Há anos que tinha algo por resolver em Paris. O pequeno mistério levava o nome de La Louisiane, nome do hotel onde viveu um dos escritores a quem regresso com frequência: o egípcio Albert Cossery, editado em Portugal pela Antígona. Cossery levou uma vida boémia em Paris, sempre próximo dos que tinham com a vida uma relação sem máscaras. Escrevia vagarosamente – uma linha por semana, reza a lenda – publicou oito livros e era um confesso adepto e praticante da preguiça, dos mais diversos prazeres e também do escárnio, o qual distribuia graciosamente por todos os poderes e ambições. Tinha o mais absoluto desprezo pelo consumismo e pelo lado materialista da existência. Dizia: «A vida é maravilhosa, mas é preciso uma pessoa saber desprender-se de tudo isso que desgraçadamente dá felicidade aos imbecis».
Batemos à porta do La Louisiane pelas onze e meia da noite. Gentil, um jovem mulato atendeu a curiosidade. «Boa noite. Peço desculpa, mas só queria saber uma coisa», atirei-lhe. «Quantos anos viveu o escritor Albert Cossery neste hotel?». Ele, com um ar vagamente espantado, explicou que o escritor ali vivera mais de 50 anos, tendo morrido há relativamente pouco tempo (esta era a parte que eu já sabia). Daria a visita por concluída e satisfeita a este lugar de peregrinação pessoal e devota a Saint-Germain-des-Prés, mão dada com os olhos azuis que me guiam, se não se desse o caso do jovem mulato ter voltado a abrir a porta: «Desculpem: e vocês são…?», perguntou. «Portugueses», ouviu. «Então entrem por um minuto».
Num hall acolhedor, com sofás de preguiçar como gatos, e afagados por uma leve sensação de intimidade, aguardamos por breves segundos até o jovem regressar com um exemplar da edição portuguesa de Uma ambição no deserto. Por momentos, pensei que ia simplesmente mostrar-me o livro. Apressei-me, atabalhoado, a dizer que, por acaso, até já tinha aquele exemplar, mas preparando-me para agradecer o gesto. Ele, pacientemente, explicou: pouco tempo antes de morrer, Albert Cossery deixara no seu quarto uma mala cheia de livros com um exemplar de cada uma das suas obras editadas em várias línguas. E aquele exemplar era precisamente o que restava em edição portuguesa. «Como quase ninguém que aqui fica hospedado pergunta por ele ou sabe que ele aqui viveu, este livro, que pertenceu ao próprio Cossery, é para si. É um presente».
Não sei quantas vezes agradeci, gaguejando. Ainda conversamos sobre as vezes que ele mudou de quarto e vimos, na zona do bar e de leitura, o quadro com as notícias sobre a morte do escritor emolduradas. Despedi-me, encantado, com o livro colado ao peito e arrependido por não ter obrigado a agência de viagens a escolher este hotel para a breve estadia. Prometi: «Da próxima, em Paris, fico aqui». Até porque La Louisiane tem mais histórias para contar. O livro, esse, não possui qualquer rabisco, traço ou ruga que o distinga. Mas é o «meu» Cossery. E era dele. E basta-me que eu saiba.

 

Sobre Miguel

Jornalista, 40 anos, viveu o tempo livre das rádios-pirata, mas aterrou nos jornais após o Curso de Radiojornalismo do Centro de Formação do Jornalistas do Porto, hoje inexistente. Trabalhou no Diário de Notícias, no semanário O Independente e é, desde Dezembro de 1999, repórter da revista Visão. Jornalista há 21 anos, nasceu no Porto, cidade a que pertence até ser pó, cinza e nada. Music Playlist at MixPod.com
1 Comment

Publicado por em 6 de Março de 2012 in devida comédia

 

Tags:

Uma resposta a Paris – 14

  1. fallorca

    6 de Março de 2012 at 12:53

    O acaso é fascinante

     

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