Sete meses e já campeão!

Foi a noite perfeita. Primeiro, o concerto da Sétima Legião na Casa da Música, tantos anos depois. «Estamos em casa. O Porto é a nossa casa», disse, a abrir, o vocalista Pedro Oliveira, enquanto eu ia recebendo as mensagens de mais um título. Os anos não passam pela Sétima Legião. Ou se passam, é para melhor. Há quarta canção – Sete Mares – já a sala estava toda de pé. As saudades que o Porto já tinha deles. Tiveram de voltar três vezes ao palco e eles com cara de não acreditar, parvos de encantamento. E nós com eles. Esperamos tantos anos, sabem? E é bom saber que está tudo no sítio: a energia, as vozes, o talento. Voltem sempre. Depois…Baixa! Para os festejos do primeiro campeonato do filhote, de cachecol a condizer. Calma…não se arrepiem os mais impressionáveis. Não é caso para violência doméstica. O Chisco terá sempre possibilidade de fazer as suas opções. O pai deixa-o escolher qualquer clube da cidade que esteja na I Liga. «Mai nada»!

Tertúlias

Nas últimas semanas participei em duas sessões sobre Jornalismo com jovens estudantes de Jornalismo e Comunicação das universidades do Porto e de Coimbra. No primeiro caso, em plena sala de aula. No segundo, num espaço soberbo, poético e intimista, chamado Galeria Bar Santa Clara. Em ambas situações, tertúlias muito participadas, com diálogos e questionamentos bem interessantes. Contudo, antes de partilhar com pessoas de outra geração algumas das convicções que me acompanham na profissão, assalta-me sempre um dilema: como explicar aos mais jovens que, nestes tempos difíceis, vale a pena estar deste lado? No fundo, tenho-me guiado por duas ou três ideias, as minhas «verdades». Haverá outras, talvez mais sensatas e mais estruturadas, mas as minhas são estas: ser jornalista implica uma obrigação moral perante a sociedade, uma missão que visa a construção de democracias mais esclarecidas, pluralistas, livres e conscientes; ser jornalista não pode ser a maneira mais fácil de tratar da vidinha e atingir o estrelato; ser jornalista talvez não mude o mundo (George Steer, jornalista que revelou a verdade sobre Guernica diria o contrário), mas é nosso dever escrever como se isso fosse possível. Ora, devo dizer que, por muito pessimismo e receios que me assaltem nesta época em que uma grande parte dos jornalistas trabalha no osso – quando não foram despedidos – são estes jovens, estas audiências carregadas de imaginários, vontades e ilusões que ajudam a recuperar energias. Diante de mim, nestas últimas semanas, estiveram jovens contagiantes que, podendo ou não vir a ser jornalistas, carregam em cada dúvida, em cada pergunta, a doce irreverência dos sonhos e parecem dispostos a lutar por eles. Agradeço-lhes isso. Nos tempos que correm, já não é pouco. É até bem capaz de ser muito.

(Um obrigado à Isabel Reis e ao João Figueira, camaradas e professores, que me proporcionaram estes momentos…)

Soares, por J. Rentes de Carvalho

«Seria longo detalhar as razões da minha antipatia por Mário Soares como figura política. Datam de Paris, no começo dos anos 60, e permanecem. Tenho também pouco apreço pelos que, ingénuos ou ignorantes da História, e dizendo-se eternamente gratos, se lhe referem como “o homem que nos trouxe a Democracia.” Não trouxe. As peripécias são outras e menos simples.
Mário Soares desagrada-me ainda como pessoa, pois simboliza aquilo que detesto e de que desdenho na burguesia portuguesa: a falsa pachorra, a jovialidade de pechisbeque, o modo paternal, o sorriso pronto, a mãozada, os Ora viva!, a festinha aos humildes; por detrás de tudo isso a ganância, o cálculo frio, o desprezo do semelhante, a presunção, o sentimento bacoco de casta, os rapapés, a mediocridade.
O senhor Mário Soares sabe o que dele penso. Isso, contudo, parece não obstar, pois tenho recebido os seus livros, autografados, e surpreendeu-me um Natal, enviando um retrato seu, dedicado “Ao meu caro amigo J. Rentes de Carvalho”.
Surpresa tive-a também um dia em 1998, quando o competente e muito amável João Rosa Lã, então nosso embaixador em Haia, me telefonou anunciando:
– O Mário Soares vem cá almoçar e pediu que o convidasse, pois quer muito falar consigo.
Lá fui. Seríamos cinco ou seis, mas o cordial ex-presidente como que se apoderou de mim e, esquecendo os outros, esmiuçou longamente, miudamente, a sua visão da política portuguesa.
Fui ouvindo, e em determinado momento, para rebater o que ele afirmava disse-lhe:
– Mas isso, senhor presidente…
– Já não sou presidente! Chame-me Mário.
Agradeci, recusei, disse-lhe que da minha parte acharia indecorosa a familiaridade, se bem que…
– Se bem que?
– Dá-se o caso que o senhor presidente e eu já dormimos na mesma cama.
Contei-lhe depois a história, resumindo os detalhes e escondendo o remate.

Deve ter sido em Setembro de 1948, os dezoito anos feitos, que o Dr. Armando Pimentel , amigo e mentor, me convidou para um jantar em Macedo de Cavaleiros, onde padres ricos e proprietários abastados iam festejar a excepcional colheita de trigo e centeio desse Verão.
De Estevais a Macedo leva-se uma hora, naquele tempo dava a ideia de se ter feito grande viagem. Amesendámos na então já nomeada Estalagem do Caçador. Éramos muitos, eu o único jovem, sei que se começou com alheiras e chouriças, a seguir perdiz, borrego, leitão. O resto sumiu-se da memória.
Uns trinta anos depois aconteceu-me passar por Macedo, almocei na Estalagem, iniciando uma espécie de ritual, e desde então vezes sem conta lá comemos e pernoitámos, criando boa amizade com a D. Maria Manuela, que com simpatia e perícia dirigia o estabelecimento.
É ela que nos acolhe uma tarde de muito calor, manda preparar uns refrescos e, enquanto beberricamos e coscuvilhamos, diz que nos reservou um quarto especial.
Sobe connosco, abre a porta, e anuncia com maliciosa solenidade:
– O Mário Soares dormiu aqui ontem!
No fundo achamos desagradável a nova, é como se as exalações do corpo e da personalidade do homem ainda flutuem no aposento, mas sorrimos, dizemos umas palavras de circunstância, a D. Maria Manuela despede-se.
A empregada, transmontana, retornada de Angola, espera que a patroa desça, encosta a porta, e rosna, truculenta, ao mesmo tempo que nos agarra pelos braços:
– É verdade! O filho da puta dormiu aqui! Mas estejam descansados, que já desinfectei!»

(Retirado do blogue Tempo Contado, da autoria do escritor)

Carta a um sportinguista amigo


Mário, querido amigo e camarada
Desejei-te sorte ontem. Sabes que foi de coração. No fundo, nós, os que gostamos de futebol, que o discutimos e vivemos com paixão – quanto a mim, a única maneira de o viver – sabemos que as alegrias que ele nos traz forjam identidades e completam imaginários. E se o Sporting conseguisse trazer à tua geração o que o meu FC Porto trouxe à minha, eu teria ficado feliz, pelo menos desta vez. Mas tu sabias também como eu gostaria de ver o Atlético de Bilbau na final da Liga Europa. E sabes porquê, pelo menos desde à altura em que, na minha única visita ao mítico San Mamés, te trouxe uma das t-shirts comemorativas do centenário do Athletic.

Já perdi a conta às vezes que passei e me demorei por Bilbau. Da primeira, em 1997, a cidade tentava arrumar-se para um futuro próximo e abraçar um certo cosmopolitismo que o Guggenheim lhe trouxera, mas tardava ainda o desmantelamento da ferrugem típica de Manchester basca, que marcou a história da cidade. Mas a paixão veio, de rompante. Quem me conhece sabe que Bilbau é, para mim, uma fotografia da alma das suas gentes, coisa por vezes difícil de captar numa cidade. Bilbau não é, não foi nunca, uma cidade maquilhada, disposta a perder a identidade em nome de uma qualquer operação cosmética. Quem conhece a cultura basca, quem nela se entranhou, dos bertzolaris às tardes de futebol en San Mamés, dos tascos aos saberes mais eruditos, sabe que Bilbau não é uma cidade de visita e nunca se regressa dela impunemente.

Da única vez que assisti a um jogo de futebol em San Mamés, nos primeiros anos deste século, nem sequer guardei na memória o nome do adversário do Athletic. Sei que «ganhámos» 2-0 e o Athletic lutava para não descer de divisão, mas a experiência desse dia ficará, em mim, gravada para sempre. Não foi apenas uma coisa de pele. Foi sentir, ainda que por momentos, que se faz parte de algo mais além do futebol, algo que não se contabiliza em golos nem em títulos e muito menos obedece às lógicas das eurocracias e das retóricas redutoras. A arrepiante e comovente tarde desse dia fez-me perceber, de cachecol no pescoço, que ser do Athletic não poderia dissociar-se da cidadania activa, consciente, genuína, das suas gentes. Porque aquela é uma região orgulhosa de si mesma, da sua cultura, da sua identidade, das suas dinâmicas cívicas, do seu lugar num mundo onde tudo caminha para a uniformização, mas onde também cabem as diferenças e se abraçam as convivências. Partilhar isso com os adeptos bascos nas ruas do centro histórico, entre tintos, sidras e petiscos, debaixo de uma chuva chata e melancólica, é quase uma experiência religiosa. Numa época em que o futebol é cada vez mais marca, negócio, parcela de conglomerados, brinquedo de milionários fast-food e fetiches endinheirados, o Athletic mostrou à Europa e ao mundo que há lugar para a poesia e para os sonhos que não dispensam a consciência das raízes, da diversidade, do lugar e da História. E isso, para mim, é a bandeira que conta.

Quando ontem vi os adeptos bascos aplaudir, de pé, o bravo Sporting que saiu futebolisticamente derrotado de San Mamés, perguntei-me: quem, no seu perfeito juízo, pode dizer que houve ali vencedores ou vencidos? De resto, sei que não terás ficado espantado, como eu não fiquei. Ali, o futebol é outra coisa, como se percebe pelo brilhante texto do jornalista Nuno Sousa, enviado do Público a Bilbau, na edição de ontem do jornal. Ali, o futebol é apenas um ingrediente mais de uma comunidade digna, trabalhadora e orgulhosa e nunca objecto de arremesso contra algo ou alguém, a pretexto de uma bola que entra ou não entra (a excepção será talvez o Real Madrid, mas essa tem razões que a História não desconhece).
Caro camarada: sei que, passada esta hora triste, estarás comigo, daqui a nada, a torcer pelo Athletic na final em Bucareste. Melhor seria lá estarmos, mas no sofá lá de casa eu estarei de bandeira basca e cachecol na mão à espera de um verso que só o futebol pode escrever nesta desencantada Europa, S.A, que dilui a memória e a identidade dos povos para tentar salvar-se do seu próprio pesadelo. Um abraço.

Hoje

O convite partiu do meu amigo João Figueira, antigo camarada no Diário de Notícias, em nome da Secção de Comunicação da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. E foi imediatamente aceite. Para começar, gosto de Coimbra. Além de outros momentos inesquecíveis, fui, durante anos, um dos peregrinos dos saudosos Encontros de Fotografia em fins de semana que aproveitava para me deliciar com a tradicional chanfana, iguaria que me traz à memória os primeiros petiscos e almoçaradas nas viagens às raízes do meu avô paterno, em Poiares. Depois, gostei da ideia de tertúlia associada à sessão, pois normalmente fujo a convites destes, sobretudo se realizados em contextos de cátedra para os quais não tenho capacidades, conhecimentos nem talentos. Nem…power point, já agora. Ora, como não é o caso e dizem-me que o espaço – Galeria Bar Santa Clara – até é giro e as tertúlias animadas, apareçam, pois, a partir das 21 horas!

Já agora…

Passa hoje de madrugada, na esquecida RTP 2, o documentário «Os Donos de Portugal», baseado num livro com o mesmo nome, da autoria de Jorge Costa, Luís Fazenda, Cecília Honório, Francisco Louçã e Fernando Rosas. A obra desvenda e explica a teia familiar, política e económica que nos (des)governa e nos asfixia desde há muito tempo, desde há demasiado tempo. O livro, que passou algo despercebido, foi escrito por alguns amigos e correlegionários de longa data de Miguel Portas, que morreu hoje, em Bruxelas. Seria, pois, uma belíssima homenagem à sua memória e às suas lutas que o serviço público não fosse apenas prestado pela calada, de madrugada, mas sim transmitido às claras, em horário nobre, em honra de um dia inicial inteiro e limpo de há 38 anos. Pode ser ou dói muito?