Correio galego – II

 

IMG_20140819_103944

O meu lado antissocial revela-se em férias. Sobretudo fora de portas e quando há muitas livrarias por perto. Como sei que poucas pessoas sobrevivem a esta má companhia sem transformar o enfado numa tragédia, por vezes viajo uns dias sozinho (embora depois também sinta falta das partilhas e cumplicidades de pôr do sol, à volta de um jantar vagoroso, de um poema ou da descoberta de um novo escritor). Ontem, foram três horas certinhas na Casa del Libro. Hoje metade de uma manhã e metade da tarde, divididas por mais três livrarias, uma das quais de BD, das mais fantásticas que já vi. Numa livraria gosto que me deixem solto, sem pressões, sem horas ou implicâncias, a vaguear entre os esquissos de Joe Sacco e a descoberta da espantosa coleção Blackie Books, com Dickens pelo meio. E o que mais houver. Porto-me como uma criança que descobre brinquedos que nem imaginava que existiam. Se a língua do País me é familiar – e o castelhano é quase água, felizmente – gosto que me deixem a ronronar pelos cantos, a empilhar livros que depois decidirei se levo, a ler passagens inteiras de romances e a escolher calhamaços como se fosse lê-los amanhã, de empreitada. As livrarias são, para mim, os melhores lugares para se estar em férias. Se servissem gin-tonics eram perfeitas.  

Correio galego – I

IMG_20140817_135948

Chego à Galiza e encontro Rui Moreira na edição domingueira do Faro do Vigo, com chamada de capa. Duas honrosas páginas, sem nada de propriamente novo, mas a provar que o fenómeno está para durar.

À minha frente, num autocarro, um casal de namorados…namorisca. Falam ambos espanhol, como seria de esperar. O boné dele é que é outra loiça: lê-se Portugal em letras garrafais. Sem sair do vasilhame, vos digo: os tintos da Adega Cooperativa de Vila Real estão nos melhores bares e restaurantes. À vista desarmada. Também a olho nu se topam os portugueses na praia. Ouvem hip hop português, a bater como charros, ou «piquenicam» de toalha estendida e tupperware nas sombras das redondezas. Quando metem o pé na areia, fazem do palavrão uma muleta, associando-o a expressões tipo «Anda cá, Gabriel!». Afinal, os domingos de agosto são todos iguais no noroeste peninsular.

As vespas asiáticas – que além de outros insectos, também matam abelhas – tornaram-se um martírio na região de Pontevedra. Uma velhota não aguentou a picada e faleceu. E a praga dá que falar. Outra praga (asiática?) é a que noticia La Voz de Galicia: um em cada quatro contratos de trabalho na Galiza tem uma duração inferior…a sete dias.

Muito ainda se escreve sobre Lauren Bacall por estes dias. Crónicas, ensaios, entrevistas, há de tudo, e de fino recorte literário, nas páginas dos jornais. O realizador Antonio Aloy, que dirigiu a mítica actriz em Presence of a mind (2001), diz que Lauren não fumava nem bebia desde a morte de Bogart, «o homem da sua vida». Mas a destilar veneno era uma senhora: «Não sei com quem lhe falta dormir em Nova Iorque», dizia ela, sobre Winona Ryder.

Faro de Vigo entrevista Amira Hass, a jornalista israelita que trabalha no diário Haaretz a partir de Gaza. Traduzo: «Quando se diz que Israel tem direito a defender-se omite-se que Israel é uma potência ocupante nos últimos 47 anos (…) É totalmente falso que Israel seja uma democracia. Não pode ser quando durante muitos anos controla os palestinianos e não lhes dá direitos (…) Somos uma democracia para os judeus».

Excelente ensaio sobre a I Guerra Mundial lido ainda nas páginas do Faro. Tema: as largas responsabilidades alemãs no incendiar do conflito, à boleia do messianismo da «grande nação» elevado a níveis paranóicos. Um país que arrastou a Europa por duas vezes para os seus maiores horrores e fantasmas talvez devesse meditar um pouco mais sobre o seu papel no mundo. Cito Churchill: «Mais do que os seus vícios, foram as virtudes das nacões mal dirigidas pelos seus governantes a levá-las à ruína e catástrofe generalizada».

Matei saudades do polvo à galega. Ao almoço. E ao jantar. Ao lanche ainda não experimentei. Temos tempo.

Comentário esquerda lavagante: as livrarias deviam abrir ao domingo. Em todo o lado. 

Diário de um pai em construção – 49

IMG_20140808_224846

IMG_20140810_134919

IMG_20140811_095149

IMG_20140811_104354

IMG_20140811_130717

IMG_20140811_160030

IMG_20140811_153156

IMG_20140811_135335

A criança vai para o infantário em setembro. Mas as férias deste ano são uma espécie de estágio de pré-época, se é que me entendem. Daí que vê-lo a comer sozinho, a fazer perguntas em grupo, a interagir com crianças mais crescidinhas e a sorrir como todos os dias, deixa qualquer pai descansadinho. «Eu não estou chateado nem triste, papá! Eu estou muito feliz”. E pronto. Bate coração.