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Publicado por Miguel | Filed under devida comédia
22 Quarta-feira Mai 2013
22 Quarta-feira Mai 2013
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Mais uma crónica brilhante da Marta Vaz. A mim, trouxe-me à memória preconceitos semelhantes que nos eram induzidos, sem intenção nem maldade, no quotidiano de criança. A infância, até nisto, pode ser muito cruel. A ler, obrigatoriamente.
http://visao.sapo.pt/se-a-menina-nao-come-chamo-os-ciganos=f730419
22 Quarta-feira Mai 2013
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22 Quarta-feira Mai 2013
20 Segunda-feira Mai 2013
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Esta terça, pela manhã, durante uma sessão extraordinária da Assembleia Municipal, é lançado em Vila Nova de Foz Côa o novo livro do meu querido Alfredo Mendes, jornalista. Uma obra notável a todos os títulos. Primeiro, porque se trata de uma declaração de amor à sua terra, Almendra. Depois, por ser o culminar de um trabalho de garimpo notável sobre as alcunhas e falares da sua região (no caso, mais de 500 alcunhas e 2600 falares), ilustrado com fotografias de época, contributo de vários conterrâneos espalhados pelo mundo. Por fim, a obra é também a prova de que há um património imaterial por descobrir, cunhado por várias gerações, sem maldades nem preconceitos. E que precisa de ser divulgado, em nome da identidade e da cultura de um povo.
Se estiverem pela região, apareçam. Caso contrário, pode ser que haja uma oportunidade no Porto, em breve…Deixo-vos, entretanto, com a Introdução do livro, no estilo camiliano e queirosiano do Alfredo. Garanto-vos: já ninguém escreve assim…
INTRODUÇÃO
«A linguagem popular é mais irmã do Verbo divino que a linguagem dos letrados.
É a voz do sangue e da terra» – Pascoaes
-Onde posso encontrar o senhor Cunha?
«Eu nã senhori, nunca ouvi falar de tal».
- Mas é daqui, já os pais…
«Bô-bô?! E tu, Cremilda?, ateima num tal Cunha…»
«Vem ao engano. Não há alma com esse nome».
-Bem, parece que lhe chamavam o, o…Mija na Ovelha!
«Atão já podia ter dito. É mê parente e mora p´rós lados do Calvário».
É isto: Ao arrepio da santa madre Igreja, a aldeia apadrinhou quase todos os seus filhos, fossem eles da mais fina gesta, ou burraçudos que nem a alimária à rédea de ti Zé Pote. Enrolados à lembrança, os alcunhos ainda escoicinham num repentino melindre, quando não, parecem afagados numa impotente e cândida resignação.
Na savana africana, na exuberância do nordeste brasileiro, no cosmopolitismo parisiense, para não falar da tripeira Cedofeita, ora na alfacinha Baixa pombalina, os almendrenses, quando se salvam e trocam novas acerca deste e daquele conterrâneo recorrem ao epíteto que melhor o referencia. Ao acaso:
«Não está alembrado? Um que le chamam Fanisca. Pertencia aos Lapregas».
Ah, bem-aventurado espírito jocoso incorporado ao nome de baptismo, tal o piche apegado ao caminho por onde os almendrenses haveriam de partir na esperança de um moirejar menos rude e mais generoso – no Porto, Lisboa, Lobito, S. Paulo, na terra prometida pelos passadores.
A “Salto”, um povo inteiriço de migas e fadigas; povo malfeliz que exaltou a saga de músculos no amanho da terra, nós vos louvamos terra fecunda, razão de ser, terra-mãe cântico dos cavadores glorificando jeiras de encrestar
a pele e amassar os ossos. Povo de enxada na mão que, remoído de fome, ou até analfabeto, escreveu com o aparo do arado as palavras pão e vinho – sagrada escritura.
O que ficou, perguntais?
Desalegria.
E luto espesso nas vestes das mulheres doloridas, viúvas com o seu homem vivo e ausente. Ficou o tempo das crianças e dos velhos, de um húmus abandonado aos erviçais da solidão. Ficou um admirável amor aos campos regados com o suor do rosto. Ficou a lembrança dos ninhos, do rebusco, das merujes e espargos, das migas d´alho, dos serões da partida da amêndoa e da cozedura do pão – o pão que o diabo amassou.
À espera da morte lenta ficaram sete fábricas de moagem e lagares de azeite, um deles, antigo, notável, movido a água, e mais de uma dezena de moinhos, na Ribeirinha, oito lagares de vinho, uma vintena de grandes quintas e de olivais e vinhas, quatorze eiras, mais de dez noras e fontes e chafarizes e perto de sessenta pombais.
Restou também o despovoamento à espera, sempre à espera de um outro D. Sancho que tantos filhos incógnitos teve, “filhos de gaança” como na Idade Média lhes chamavam e mato, mais mato e silveirais.
Terra descultivada.
A vida rural sepultada. Casas fechadas. Em Agosto, a gosto, o regresso por novas estradas e renovado ânimo atordoado por festanças e… “vacanças”.
E será preciso navegar pela auto-estrada dos meses, de muitos anos para o esquecimento, a aculturação, a lonjura de uma realidade podar as tiradas satíricas salpicando a caracterização moral, psicológica e física da criatura: bondade e ruindade, uma ou outra exclamação, um andar manquinho e… foi quanto bastou.
Bonserás ou atazanado. Plácido ou bilioso. Bardino ou recolhido. Pitorra ou cambiço. Sorna ou assomadiço. Pançana ou magriço. Mole ou assanhado. Amigo dos pássaros ou adepto do tiro e queda.
Para o que der e vier, os cunhos tratam da roupagem pública. Em primeiro lugar surge o comportamento, depois, as características físicas.
Outros, num enredado jogo de letras, parecem não ter explicação. Raros atinam com o seu significado. Mas bichanam aos ouvidos, “Mata-a-Morte”, “Carrasco”, “Pelado”, “Bobra”, “Arrebenta” e depressa visualizamos aparências, modos de ser e de estar, permitindo um juízo aproximado das personagens. Pois aqui temos uma
preciosa oralidade jamais exarada nos registos de nascimento, tão-pouco viva nas lápides do cemitério.
Há uma data de anos, em Matosinhos, contou-me o senhor Carlos Margarido:
«Quando trabalhei na Conservatória do Registo Predial de Vila Nova de Foz Côa, a correspondência para Almendra tinha de levar a alcunha do destinatário logo a seguir ao seu nome. De contrário, o próprio carteiro não sabia a quem a entregar. Ficava enrascado».
O carácter alegórico enriqueceu a pintura das palavras. A forma jogralesca reflectiu a espontaneidade do anónimo retratista. Também aqui e ali a malícia, a brejeirice, a ironia à flor da paleta. Isto é, aproveitamento de uma determinada situação e… zás!, o rótulo de escárnio e maldizer, a particularidade passando de pais para filhos como se viajasse na massa do sangue. Curiosamente, mais imorredoiro do que o próprio nome: «Quê?! António Manuel? Hum!… não tenho presente. Só se for o que se casou com uma Cara-de-Bolacha».
Já na instrução primária dos professores Carlos, Ferro, Tavares, Patrício, Amélia, Cerca, na nossa bela escola das carteiras com o buraco para o tinteiro, da caixa métrica, da “Carta de Portugal Insular e do Império Colonial Português”, da Cana-da-Índia varejando orelhadas, na escola mais linda do universo, o rapazola lá teve de empinar nomes de reis pelos chamados cognomes.
Que chapadela!
Ao calha, “O Bravo”, “O Cruel”, “O Eloquente”, “O Gordo”, “O Lavrador” – designações a tipificar as cabeças coroadas, os seus perfis marcantes, os seus ímpetos façanhudos – e o rapazola que se amolasse com o sincopado papaguear sob ameaças de roupa chegada ao pêlo.
Mais: desde o início da nacionalidade que o sentido pejorativo e a zombaria não deserdaram a lusa fidalguia.
Logo, quanto fartos se apresentam os casos inscritos nos Livros das Linhagens. Havendo vontade em tais leituras, ficarão a saber do vingar da “Boca-Negra”, pela certa devido a feito comezinho; uma irrecomendável “Merda-
Assada”; um malfadado “Cu-na-Rua”, já para não prestar vassalagem a uma tal “Coxas-Quentes” – pela certa fofo, esbraseado apodo cobrindo a barregã de D. Sancho I. Vox populi: a mula do monarca.
Segue-se que o rapazola cresceu familiarizado com a galeria gerada pelo sinete popular – prodigiosa tradição à mercê da inspiração ocasional, não bonda quase sempre rodeada pelo travo depreciativo relevando um detalhe. Quer-se dizer: de feitio dado à chacota, o honrado, o rectílineo povo não poupou velhos e novos, humildes e nobres, ricos e pobres. Tiques, borracheiras, aleivosias de alcova, forretices, mãos largas. Tudo quanto respeita à acção da espécie caiu no falar popular, essa estimável biblioteca sonora transmitida de boca a orelha. Volta-se à
terra-natal e ti Pompeu, uma vez apeado do tractor, põe-se a recordar:
Reparai: um homem, “Cagalhão”. Um tasco, “Olho do Cu”. Pois quando calhava perguntarem pelo indivíduo que frequentava aquele sítio após as jeiras, logo se ouvia a resposta: «O Cagalhão já saiu do Olho do Cu». Olho do
Cu, expressão já em voga em 1759, revela-nos Manuel Joseph Paiva, no seu estudo sobre calões.
Para contraste haveremos de incensar uma rua, cuido que abençoada, a caminho da imponência das três naves da igreja-fortaleza. Nem no Vaticano – qual! Tão-pouco na corte celestial – credo! Um milagre a concentração de tantas divindades. Pois nela moravam a “Santidade”, a “Previdência”, o “Pai do Céu” e o “Menino Jesus”.
Que a alcunha – do árabe al-Kunia – troa mais alto que o nome, como já se disse? Ninguém o olvide. Regra geral, o nome nasceu da denominação da localidade, do gosto dos padrinhos, da evocação de santos e heróis, do tributo a flores, árvores, animais, da homenagem ao avô. Ou então, porque soa bem ao ouvido e ajoelha ao
culto de certas sumidades. Também mais recentemente houve quem fizesse a escolha a partir da ficha técnica das telenovelas.
A alcunha, não. Nada disso. Directa, concisa, malandra, fóssil de graça e louvor, terrífica ou meiga, só a entoação apresenta as credenciais do alcunhado, normalmente na corda bamba no adro da igreja, nos lavadouros públicos, nos chafarizes, na vindima, no magusto, na apanha da azeitona, nos “Papéis”, a fazer a meia à soleira da porta, nas tabernas de todos as celebrações – mais de uma dezena delas, belas e bem afreguesadas. E aqui temos um tipo de fonética regional, autêntico maná deliciosamente servido a qualquer sociolinguista, queira ele. Espantoso!
Apenas meia dúzia de letras amassa a biografia dos sujeitos, escarafuncha os seus predicados, põe ao léu, a mais clara ecografia temperamental. Instituição social dos pequenos meios, forma lúdica de identificação e destrinça entre zés, maneis e marias, a etiquetagem tem no sexo masculino a preferência, muito embora haja
diuréticas derivações para a mesma família: “Mijão”, “Mijões” e “Mijonas”.
A alcunha…
De 1265 fixámos um tal “Azedo”, mais precisamente, “Petrus gonsaluiz dictus Azedo”. A partir do século XIII acentuar-se-ia a usança, com respigos de mordacidade. A alcunha…Arrenegá-la, estigmatizá-la, é deitar às urtigas uma linguagem-imagem que cala fundo. Um acervo estrumado na veia genuína e repentista da grei, na sua pujança criativa e fértil, a par de orações, cantigas, contos, mitos, lendas e lengalengas, adivinhas, provérbios, rimances e romances – magnífico escrínio de sabenças ancestrais, seja deslumbrante seara de memórias.
Uma vez gente de parecida igualha medrar um pouco por todas as bandas, não admira, assim, em terras algo longínquas entre si figurar o mesmo labéu aceite pela comunidade, sinal de semelhantes pormenores somáticos, psíquicos ou pícaros, apenas se pondo a salvo as atitudes padronizadas, os chamados comportamentos-modelo. Quem mija fora do penico é quem se submete à expiação – nem mais.
Posto isto, façam o favor de saber: há um “Barata” em Almendra, outro no Alentejo e tenho um amigo ”Barata” em Leça da Palmeira; pelos vistos, a tribo mergulhou na diáspora. E por falar em bicheza rasteirinha: há um “Grilo” em Almendra e outro em Leça e grile, grile o insecto saltão. Um “Côdeas” em Leça e outro em Almendra. Um “Chona” no concelho de Figueira de Castelo Rodrigo e… um “Chona” em Leça da Palmeira. “Mijona”, na Sé, Porto, outra no Minho e Almendra, ínfimo número abonando a incontinência urinária. Que um “Facadas”, “Janeiras”, “Melões” os há em Almendra? Idem na Póvoa de Varzim. “Cara-Linda” de Almendra, “Cara-Linda” do Bairro dos Pescadores de Matosinhos; um famoso “Cara-
Linda” das Fontaínhas, Porto, “Cara-Linda” de Espinho e… “Cara-Linda” do Minho e do Alentejo, província onde existem, tal como em Almendra, “Pardal”, “Cagado”, “Chicha à Farta”, “Facadas”, “Mal-Casado”, “Rei” e “Poeta”.
Vamos prosseguir? Então vá. “Cevadas”, “Crica”, “Cristo”, “Mocho”, “Monas”, “Mocas”, “Minhoto”, “Penica”, “Pimenta”, “Padreca”, “Rato”, “Rolo”, “Sereno”, “Vareta”, “Zé das Vacas” e “Zorro” são alcunhas de Almendra, não são? Olhem, também são chamadouros de… Almeida! Vejam, vejam ainda: “Cegonhas”, “Escalda”, “Rambóia”, “Sardinheira”, “Pelada” são alcunhas de Almendra e… de outros locais do concelho de Vila Nova de Foz Côa.
Na sede do concelho alto-duriense, documentos de 1700 citam estas alcunhas: “O Deixa”, “O Mazores”, “O Bota”, “O Vinagre”, “O Doutor”, “o Bacharel”, “O Toma”, “O Quinta-feira”, “O Bataxones”, “O Alcatras”. As de Almendra, desses tempos recuados, finaram-se com as pedras da cadeia, do forte e mesmo da fontaínha.
Na arraia-miúda das colmeias piscatórias torna-se fascinante verificar a migração de famílias entre a Póvoa de Varzim, Afurada e Matosinhos, justamente através do arrasto de algumas alcunhas. Estas muito antigas de Matosinhos: “Os Cagas”, “Malhão”, “José Sabe Ler”, “Sete Tigelas”, “Maria Amada”. Matosinhos, onde ainda
vivem o “Paquete”, o “Bebe-Água” que existem igualmente em Almendra.
O estudo das nomeadas reveste-se de particular interesse para os filólogos, etnógrafos e historiadores, assinalou Pires de Lima. Munido de estilo seivoso, Miguel Torga, num dos textos de “Novos Contos da Montanha”, exprimiu deste jeito a importância de tais usos: «Se perguntassem em Malhão o nome do autor de todas as alcunhas que no povo definiam quem tinha definição, ninguém sabia.
A história humana da terra estava inteira nos apelidos dos seus filhos. João, António, Francisco, Carlos da Lousa ou Joaquim da Fonte individualizavam gente, mas não testemunhavam vida e acção. Já Fogo-Morto, Chegame-Isso e Pé Tolo exprimiam defeitos e virtudes concretas que todos conheciam. Às vezes o apodo não tinha aparentemente qualquer significação. Lafunfa, por exemplo, não queria dizer nada. E, contudo, nenhuma palavra podia retratar tão completamente a pessoa atarracada e casamenteira da Gregória. O portador do cartaz zombeteiro, como uma truta presa no anzol, a princípio saltava e barafustava. A tudo Malhão assistira, nesse capítulo. Zangas, injúrias, e tiros, até! O curioso é que daí a pouco tempo a própria vítima se servia desse cartão de identidade mais universal.
-Saiba V. Sª que a minha graça é Gabriel Ramiro dos Anjos… -explicava o interessado, a tentar receber no banco um cheque que lhe mandara o filho do Brasil.
-Acredito. Mas traga, traga fiador… Ou então arranje uma casa comercial que o abone…
-Talvez V. Sª tenha ouvido falar no Luminárias…
-Ai vossemecê é que é o célebre Luminárias?! Isso é outro cantar!… Assine aqui…»
Avesso a boçalidades, o meu amigo António Manuel Pinto de Carvalho sai à liça com esta passagem: «Lembro-me de duas, em Favaios, e outra em Sanfins do Douro. Eram os “Arrasa Pentelhos” e os “Arre Putas”. E toda a gente os tratava assim com a maior das naturalidades. Uma vez, o meu avô materno tentou explicar à minha mãe que tinha chegado a Moçambique um Sousa, um Ferreira ou qualquer coisa do género. Como a minha mãe não atinasse com quem se tratava, ele lá acabou por dizer, meio encabulado, diante de mim e dos meus irmãos: “É daqueles, daqueles… “Arre Putas”. Minha mãe, vermelha que nem um tomate, comigo e os meus irmãos a rir à gargalhada, lá exclamou:
– «Ah, já sei quem é».
Boa parte desta colheita sonhando, sonhando a sua conversão em livro é fruto do entusiasmo de Salvador Nevado, corria Janeiro de 1977. Disse Salvador Nevado? Perdão. Salvador “Bau-Bau”. Ressalvo algumas imprecisões, porventura resultado de versões desencontradas, ou os mais antigos também não baralhassem coisas
e loisas do passado. A par das cerejas, quanto mais se falava de apodos mais eles abicavam, suculentos. Haverá que justificar o seguinte: não se identificam as pessoas pelo seu nome de baptismo, visto algumas, de forma legítima e compreensível manifestarem a sua discordância. Ninguém leva a mal ou é susceptível quando se trata, por exemplo, de “Destemido”, “Bondoso”, “Bebe-água”. Mas o mesmo não se dirá quando a nomeada pouco, nada tem de abonatória, assim a modos de “Medroso”, “Cruel”, “Borrachola”.
Não se apresenta findo este modesto labor de arrecadação elaborado com profundo respeito por todos, mesmo por todos os alcunhados. Apenas pretende ser um contributo para sobrevir um dado património imaterial em progressiva, quiçá inexorável perda. Por enquanto, neste levantamento ficam tão-só à volta de 500 e tal enumeradas mais a irresistível explicação salteada, até por muito respeitar o carimbo que uma professora me pôs no tempo da escola: “Paxá”.
“A Princesa”, por exemplo. Altiva e vaidosa, vivia no Prado Pequeno como se habitasse um palácio encantado quando, corte, corte, só a dos porcos.
A “Bolorenta”, no tempo inverniço, aquecia-se na cama com tijolos vindos do fogo. Por aí poderão imaginar as essências odoríferas que exalava. “Bolas”, porque repetia, às refeições, «ora bolas! Ora bolas!» e o alcunho a rebolar, a rebolar pelo tempo.“Canito”. Esse, nas faltas da camioneta da carreira, acarretava com uma burra o correio da estação ferroviária à aldeia, coisa de 12 quilómetros para cada lado. Uma via sacra, vencer, a pé, aquelas ribanceiras de se implorar por Nossa Senhora do Campo. Resta a estrada sinuosa e, ao deus da destruição mais criminosa, a estação de Almendra que deixou de servir o comboio desde Setembro de 1988.
Não se entendia o falar da criança, enrolava-se-lhe a língua, as palavras, as frases saiam quixotescas para o entendimento geral. Uma galegada. Porém, dada a proximidade com a raia dos maus ventos e piores casamentos,
ficou “Castelhano”. “Chicha à Farta”, qual a razão? Ao homem, quando estava hospedado em Almendra, perguntaram-lhe o que desejava para refeiçoar, ao que ele de pronto respondeu: «Chicha à farta». Foi quanto bastou. E “Chaviça”? Partiu para a caça munido de um fueiro. Chegado o grupo de caçadores a uma lura, disseramlhe: «Chaviça os olhos ao coelho». E daí o crisma profano. Que a fama do “Chaimi” vinha do facto de mal pressentir festejo correr a plantar-se à frente da filarmónica, todo ancho e prazenteiro? É verdade. Quem hoje o imitar, porventura arvorado em senhoraço sob as vistas da terra, de imediato se arrisca a ouvir, «pareces mesmo o Chaimi». Pochim! Pochim!
Igualmente de feitio galhofeiro, ao almendrense recém-chegado das Terras de Vera Cruz pelos festejos do Entrudo, para além do banjo, das flautas e outros instrumentos musicais, dava-lhe para introduzir nas danças e contra-danças ao ar livre pandeiretas e bombos, ao fogueado estilo do samba. Logo, “Samba” de alcunho, né?Não estava com meias medidas. Admirava o viço da hortaliça, empolava-se com a doce, madura luminosidade da vinha e então não resistia a destilar as mais incríveis fanfarronices: que colhia gachos de arroba e meia. Então por isso, precisamente por isso muito gozo despertar logo lhe retorquiam, «colhe-colhe». Prossiga a vindima.
O alfaiate “Luisinho”, eterno solteirão, chamava a si maneirismos delicados. Portanto, o diminutivo tinha de ficar pespontado à figura. Na aldeia existiram ainda mais cinco alfaiates, facto que prova o seu peso demográfico. “Já-cá-s´tou”, porque, na volta da feira, ao perguntarem-lhe: «Já vieste?». Haveria de retorquir: «Já-cá-s´tou». Quanto a “Orelha Ratada”, que catancho!, saibam que o caso foi mais doloroso. Então ouçam: um belo dia deu-lhe para fazer uma omoleta às escondidas da mãe. Apanhado de surpresa, aflito, enfiou a comedoria na cabeça,
tapando-a com o chapéu. A escaldar, o azeite escorreu e… orelhas moucas à comiseração.
Entra em cena “Pardal”, de seu nome José Luís Paixão, fervoroso apaixonado por pássaros. Uma vez, com o risco da própria vida, desceu a um poço para salvar um pardal. Logo o povo, em salto de pardal, lhe pôs o alcunho. No Porto seria notícia de jornal por domesticar um pintassilgo que, poisado sobre o ombro direito, ia com ele para um café na área do Bonfim. Quando menina e moça encantava olhar para a sua beleza, para a maneira tão delicada como caminhava pelos campos rejuvenescidos, parecendo não amachucar, sequer, a mais frágil pétala de orvalho. A tal fragrância chamou o povo, “Pisa-Flores”.
No meio dos caçadores seria entronizado um tal “Rei”, dada a refinada e inigualável pontaria. Uma legenda ainda hoje recordada com o cinto ajoujado de peças de caça. Constava que caçava de espera esta coroa de glória das aventuras cinegéticas. Mais alcunhas e surge-nos “Tenrinha”. No ofício de talhante, o homem não parava de proclamar à clientela: «Esta carne é muito tenrinha, muito tenrinha». Nasceu – e para durar – o “Tenrinha”.
Ao nascimento também está ligada a Torinha. Conta João Alfredo, filho da senhora Maria Torinha que os seus ascendentes saíam da barriga materna pequeninos, muito pequeninos, tal e qual um torinho, uma torinha. Dito e feito. Para sempre, a família “Torinha”, mesmo se os rebentos enxergarem a luz do mundo já bem entroncados. Ainda que algo circunspecta, “Ti Calada” não se livrou dos reparos mal veio casar a Almendra, apesar do aviso de uma vizinha: «Tenha cuidado com o que diz – logo lhe botam uma alcunha». Ao que ela: «A mim não.
Estou calada». Antes estivesse.
Chamaram-lhe “Fachoqueira” porque ia ao rebusco pela escuridão da noite, levando, por isso, fachoqueiras para iluminar os caminhos. E porque morava numa corte, logo o povo a referenciou por… “Maria da Corte”. Amante da música, elemento da filarmónica de Santa Comba, concelho de Vila Nova de Foz Côa, durante anos tocou caixa. Mal sabia que, a partir daquela clave de sol, todos os descendentes, em Almendra, ficariam com o apelido de “Caixas”. Honrando os antepassados, Jaime “Caixas”, meu amigodesde a escola primária ainda aí
está para as cantorias. Entra na ribalta outro torna-viagem,:“O Cara”.Abrasileirado no palavrear, haveria de estar sempre a exclamar, «O cara, o cara». Deu a cara à tradição, foi o que foi. Encantou a aldeia com a sua maneira despreocupada, irradiante postura, a sua encantatória pregação. Era o padre Avelino, missionário que ficou intimamente ligado à festa da Senhora do Campo e aos corações de Almendra. O lavrador, seduzido por tal clérigo, na solidão dos montes bem procurava imitá-lo como estivesse alcandorado no púlpito – a ordenação popular: “Padre Avelino”.
Quando veio ao mundo era tão pitorra, tão pitorrinha que cabia numa simples telha cozida no forno da terra. Então, como havia de ser distinguido? “Grilo”, pois é claro. E posso assegurar quanto gosta de alface. Ao indagar-se pelo significado de “Penique”, num ápice saltou a explicação: «Uma vez estava bêbado e caiulhe
da cabeça o chapéu que pontapeou sem dó nem piedade, apelidando-o de… penique, penique, penique. Um penique de pôr na cabeça. Rapazito traquina, certo dia foi surpreendido a caminhar sobre a alvura do muro do cemitério em passada
cadenciada ao som de tá-tlá-tá-tá-tlá-tá. E com essa designação viveu o “Tá-Tlá-Tá” até a morte o convocar. De maroto, propenso a ferrar partidas, pela calada cortou um bom pedaço ao comprimento de um freixo que, com medida certa, secava ao ar livre, destinado a cumeeira. Resultado: feita a junta, alinhado o barrote e os caibros, quando os trabalhadores foram colocar a cumeeira no devido lugar, esta desabou com o telhado. O dono da obra descarregou a ira sobre a inocência do carpinteiro, valendo-lhe, para repor a justiça dos factos, o testemunho de um cantoneiro que tinha topado a marosca. Deste jeito, portanto, a têmpera do… “Zé dos Telhados”. Simples, afável, um tanto apressado no linguajar, aconteceu em uma tarde distrair-se e perder a boleia de um veículo onde os comparsas já se tinham encarrapitado. Quando deu por ela, desatou a correr, apelando, “Lelami”, “Lelami”, leva-me a mim, leva-me a mim, queria pronunciar. E eles levaram-no com a ternura da alcunha a chegar à Cruz da Anelha. Já o Ti Francisco, também devoto de Santo Huberto, andava à caça quando saltou uma lebre. Alvoroço. Os companheiros das andanças logo lhe gritaram: «Atire-lhe agora. Atire-lhe, atire-lhe». De nada valeu o incitamento. Receoso de algum desaire em público, deste modo se desculpou: «Vai larga».
Ah, quanto davam largas à imaginação…
Almendra – Alcunhas e Falares, de Alfredo Mendes(edição Câmara de Vila Nova de Foz Côa)
19 Domingo Mai 2013
19 Domingo Mai 2013
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19 Domingo Mai 2013
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Quem apreciou O Segredo pode mudar de página. Quem busca a auto-motivação em retóricas irresponsáveis e vazias do pensamento positivo, idem. Para os que ainda estão aí: este é um livro de «alta ajuda» e anti-auto-ajuda, pelo menos segundo o cânone. Uma belíssima surpresa, da autoria de um teórico da literatura, que mete o optimismo imbecil, anestesiante e escapista num saco, fechando bem. Daqui a uns dias conversamos, pois a leitura ainda vai em trânsito.
17 Sexta-feira Mai 2013
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Marlène Anjo Azul Dietrich sobre Hemingway:
«É como uma enorme rocha no meio do mar, algo constante e sólido, aquele alguém toda a gente devia ter e que ninguém tem. Acho que o mais admirável em Ernest é ter arranjado tempo para fazer tudo aquilo que a maior parte dos homens sonha. Ele tem tido a coragem, a iniciativa, o tempo, o prazer de viajar, de absorver tudo, de escrever, de, até certo ponto, o criar. Há dentro dele como que uma rotação silenciosa de estações, em que cada uma passa sobre a terra para depois ir ao subsolo e reaparecer, numa espécie de ritmo, refrescada e cheia de novas forças. Ele é carinhoso, como todos os homens verdadeiros são carinhosos; sem doçura, um homem não tem interesse».
Papá Hemingway - A.E. Hotcnher (Bertrand, 1966)
16 Quinta-feira Mai 2013
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