Histórias de East London. Com gente dentro.

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Joseph Markovitch viveu quase 87 anos em East London. A sua história, contada pelas suas próprias palavras nas ruas e cenários fotografados por Martins Usborne, é apenas uma das pérolas da coleção da Hoxton Mini Press. A Hoxton é uma pequena editora que publica pequenas obras de arte em forma de livros que contam histórias de gente comum. Como a própria editora assume no seu manifesto de intenções, a ideia é trabalhar sempre com os melhores artistas, fotógrafos e ilustradores para fazer belíssimos e portáteis livros de capa dura que celebram East London, «a mais vibrante e diversificada zona» da capital inglesa. Cada livro, explicam, representa um conjunto colecionável tão maravilhoso que a nossa vontade será guardá-lo para os nossos netos. E acreditem que é pura verdade. O primeiro deles, com a história de Joseph Markovitch, foi um dos presentes mais comoventes que recebi nos últimos tempos. «É a tua cara», disseram-me. E se soubessem o que eu gosto quando me despem por dentro… 

O desafio da Senhora Clap

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Respondi ao desafio da Senhora Clap (ver abaixo). Formada em antropologia e mestre em APLAUSOLOGIA, a Senhora Clap é uma investigadora de emoções. Há já uns anos que anda a escrever o tratado sobre “A Arte de Bater Palmas em Situações Alegres e Tristes”. De resto, anda pelo mundo, de diário de campo na mão observando todos aqueles que batem palmas. Frequentemente é convidada para workshops, seminários e conferências sobre o assunto. Podem consultar a página da Senhora Clap (https://www.facebook.com/pages/Senhora-Clap/588145527961228?fref=ts) e enviar qualquer informação sobre palmas, aplausos e afins para senhoraclap@gmail.com

• Tem memória de algum aplauso que lhe tenha ficado para a vida?                                                                        Sim. Em Havana, Cuba, aplaudi em lágrimas, em 2005, quase sufocado, uma peça de teatro chamada Santa Cecília e Freddie, baseada em monólogos do escritor cubano Abílio Estévez (Ceremonias para actores desesperados). O público estava junto com os atores no palco. E eu, que não tinha ainda digerido tudo o que vivera em Havana, de bom e de mau, senti que aquele texto e aquelas interpretações de excelentes atores me abriam as comportas da alma e do coração, para chorar tudo o que não conseguira explicar até ali, por palavras minhas. A peça, essa, são dois monólogos irónicos e dramáticos protagonizados por Santa Cecília e Freddie, duas personagens icónicas numa ilha submersa em imensas contradições, presa a uma eternidade que não deseja e não a liberta. «Who wants to live forever?», ouve-se, a dada altura, na voz de Freddie Mercury. E pensa-se naquilo. Naquela retórica rarefeita. Nos sonhos que batem em muros. E dei comigo de pé, em lágrimas, sem cuidar do momento em que deixaria de aplaudir.


• Já aplaudiu de pé? Em que situação?
Aplaudo de pé, sempre, a nobreza de espírito. Mesmo que esteja sentado.

• Hoje, o que lhe apetece aplaudir?
Um poeta que se descobre, Diego Ojeda. Um jornal que se leia. Um escritor de génio que brinque com coisas sérias, Enrique Jardiel. Um primo que faz do gin-tónico arte. Uma fotografia da Lucília Monteiro. Uma reportagem do Paulo Pena, da Ana Cristina Pereira ou da Sílvia Caneco. O apego à vida, à amizade e às «estórias» do Alfredo Mendes. Um beijo como se fosse o primeiro. Um abraço como se fosse o último. Mesa farta, de conversa posta. Um vinho que se saboreie como um poema e vozes em volta. Uma canção nova da Mindy Smith. A Billie Holiday, sempre. As partes boas de um filme mau (Nove Semanas e Meia). A Esquerda Tasco. A Direita que não seja de Boliqueime e que conheça pai e mãe. Portugal, visto de longe. O Porto, sempre por perto. O meu filho em modo sistema solar. E estrelas no céu. Os dias que faltam. Os dias que foram. Consciências que dormem tranquilas, à noite, e se sobressaltam, de dia. Em nosso nome.

Correio galego – II

 

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O meu lado antissocial revela-se em férias. Sobretudo fora de portas e quando há muitas livrarias por perto. Como sei que poucas pessoas sobrevivem a esta má companhia sem transformar o enfado numa tragédia, por vezes viajo uns dias sozinho (embora depois também sinta falta das partilhas e cumplicidades de pôr do sol, à volta de um jantar vagoroso, de um poema ou da descoberta de um novo escritor). Ontem, foram três horas certinhas na Casa del Libro. Hoje metade de uma manhã e metade da tarde, divididas por mais três livrarias, uma das quais de BD, das mais fantásticas que já vi. Numa livraria gosto que me deixem solto, sem pressões, sem horas ou implicâncias, a vaguear entre os esquissos de Joe Sacco e a descoberta da espantosa coleção Blackie Books, com Dickens pelo meio. E o que mais houver. Porto-me como uma criança que descobre brinquedos que nem imaginava que existiam. Se a língua do País me é familiar – e o castelhano é quase água, felizmente – gosto que me deixem a ronronar pelos cantos, a empilhar livros que depois decidirei se levo, a ler passagens inteiras de romances e a escolher calhamaços como se fosse lê-los amanhã, de empreitada. As livrarias são, para mim, os melhores lugares para se estar em férias. Se servissem gin-tonics eram perfeitas.