Os portugueses e os portugueses

Quando chega a campanha eleitoral, os portugueses dividem-se entre portugueses e portugueses. Os portugueses dizem que os portugueses não fazem nenhum, que querem é vadiar ou ir para o poleiro. Os portugueses respondem que os portugueses querem o poleiro ou andar a vadiar e que não fazem nenhum.

Nas campanhas eleitorais – e fora delas, já agora – os portugueses olham para os portugueses com desdém. O português está sempre disposto a apontar o português aldrabão, irresponsável e malandro enquanto o português olha desconfiado do outro lado do balcão e aponta para o português malandro, irresponsável e aldrabão.

Os portugueses acusam normalmente os portugueses de serem preguiçosos, pouco produtivos e incapazes de pensar no futuro do País. Indignados, os portugueses respondem que o futuro do País não se constrói com portugueses pouco produtivos e preguiçosos.

A poucos dias das eleições, os portugueses acusam os portugueses de não apresentarem ideias, de não debater as grandes questões que interessam ao País e de só estarem preocupados com o tacho. Prova de que o confronto de posições e programas, afinal, até existe, é o facto de os portugueses logo responderem que os portugueses só estão preocupados com o tacho e não querem debater as grandes questões do País e apresentar ideias.

Que isto está mal, qualquer português sabe. É por isso que qualquer português que se preze só pode indignar-se ao ver e ouvir os portugueses dizerem mal de tudo e todos. Quem o faz só pode mesmo ser português.

MC (publicado em http://www.visao.pt)

A Devida…na VISÃO – XXXIX

Os «Deolindos» e a História

Mário Crespo inicia o Jornal das Nove com a notícia sobre os incidentes entre jovens precários e seguranças numa iniciativa do PS, em Viseu. Diz Crespo: «Quem se mete com o PS, leva!». Gostava de saber o que acontece a quem se mete com Crespo, mas entretanto já lá está a convidada da noite, Laurinda Alves.

Laurinda diz que concorda com os jovens da «geração à rasca» que interromperam a iniciativa socialista e foram expulsos.
Ela e Crespo falam de direitos disto e liberdades daquilo. Nada mais é para ali chamado e concordam em quase tudo. Percebemos depois que Laurinda tem um livro novo, resultado de uma conversa com um padre jesuíta sugestivamente intitulada «Ouvir, Falar, Amar». Pensei: os tempos estão complicados, mas se a solução for mais espiritual do que «etc e tal», Júlia Roberts já temos.

A geração «à rasca» tem, pois, a solidariedade de Crespo e Laurinda. E tem também duas canções: uma do grupo Deolinda outra dos humoristas Homens da Luta, vencedores do Festival da Canção. Se a primeira dá uma bandeira e um refrão inteligente aos protestos dos jovens precários, a segunda cantiga introduz a componente Quim Barreiros que caricatura e graceja com imaginários revolucionários, usando as armas do «inimigo»: o ridículo, o estereótipo e o preconceito.

Podemos rir. E rimos. Não imaginam a quantidade de coisas que me fazem rir hoje em dia. Mas a causa é séria. Falamos de uma geração e de jovens para os quais o que há de mais seguro na vida é…precário. A onda de contestação começou no «passa-palavra» e nas redes sociais. Chegou às canções, às conferências, aos comentadores e à rua. Ganhou impulso e dinâmica. Mas a responsabilidade e a dignidade com que se vai na onda, contam. E pode dizer muito sobre o futuro da onda.

Os dilemas são vários.

Desde logo, parece-me um erro olhar a geração dos «recibos verdes» como uma massa uniforme. Não é. Juntam-se ali várias posturas, reivindicações e propostas. Umas estimáveis, outras menos. É sensato que as diferenças se esbatam em nome de um bem maior ou de um objectivo comum. Com criatividade e irreverência, como não? Mas a fronteira é ténue: quanto mais a «geração à rasca» transformar a sua mensagem num corso carnavalesco, mais à rasca ficará depois disto.

A história ensina-nos. Se quisermos aprender, claro.
Basta recuar a 1975: nem tudo o que se disse e fez à esquerda serviu a esquerda. E o 25 de Abril. Bem pelo contrário. Sabemos como acabou o que parecia ser uma causa de todos. Se o exemplo não chega, faça-se outro exercício de memória: onde estão, o que pensam e que cargos ocupam muitas das mais inflamadas figuras e protagonistas daquele tempo? Excessos de juventude, dirão…

Se o objetivo for o ridículo pelo ridículo ou a anedota pela anedota, há armas melhores. Vide o fenómeno José Manuel Coelho ou leia-se «A Violência e o Escárnio» de Albert Cossery. Está lá tudo como num manual de combate.

Acontece que o dilema maior desta geração a quem armadilharam o presente e se preparam para roubar o futuro é este: querem ficar para a História como Deolindos – como jocosa e pachorrentamente já lhes chamou Miguel Sousa Tavares na SIC – ou tomar em mãos o futuro e tentar fazer História?

Posso estar enganado – afinal tenho 40 anos e vou a caminho do cinismo – mas parece-me que as causas da geração precária só serão verdadeiramente consequentes – e, se calhar, irreversíveis – se as outras gerações forem convencidas de que estas lutas também lhe dizem respeito. No trabalho, em casa e na rua. Há exemplos ilustrados e recentes por esse mundo fora em que talvez fosse sensato meditar. Caso contrário, por aqui só restará a memória e a banda sonora do que podia ter sido e, mais uma vez, não foi.

M.C.

A Devida…na VISÃO – XXXVIII

Novos e velhos

Parece que uma boa dúzia de portugueses, daquela dúzia habituada a frequentar cargos públicos e políticos de relevância e que agora aparece nas televisões como salvadora da pátria, descobriu, indignada,, que andam idosos a morrer abandonados e esquecidos nas suas casas. O assunto, para quem ainda lê jornais ou tenta ver algo de decente na televisão, não é de hoje. Podia, aliás, em poucos minutos, recolher uma resma de reportagens sobre o tema que foram publicadas ao longo de anos pela Imprensa, mas a memória, como sabemos, é seletiva.

Nos idos de 1998, um grande jornalista, Luís Pedro Cabral, escreveu uma reportagem n’ “O Independente” sobre os velhos que, no Alentejo profundo, se penduravam numa árvore para pôr fim à vida. Nunca mais me esquecerei do título: “O monte dos enforcados”. Nesse texto, aliás brilhante, o Luís Pedro descrevia o cenário de morte lenta vivido pelos idosos naquela região do País. Tínhamos saído do “paraíso” cavaquista e entrado na ilusão guterrista. No relato do Luís Pedro estavam, porém, as respostas para uma pergunta que ainda hoje dói: o que leva uma pessoa que entrou na última etapa da existência…a matar-se?

Não há distância entre estas mortes voluntárias e a idosa que morreu sem ninguém querer saber disso durante oito anos. Em ambos os casos, trata-se de uma espécie de suicídio assistido por parte de um País que promove a desesperança, o egoísmo e a angústia. Ontem como hoje. E provavelmente ainda amanhã.

Neste País, morre-se na zona raiana de frio, desalento, tristeza e solidão. E, por vezes, de escuridão.

Neste País, permitimos que haja quem ostente o título de capital europeia dos suicídios.

Neste País, há idosos a viver isolados nos montes, que telefonam para uma junta de freguesia a inventar doenças que não têm para terem a visita da ambulância ou alguém com quem falar.

Neste País, há quem ocupe as urgências dos hospitais para ter motivo de conversa e rever cúmplices de maleitas.

Neste País, há quem se dirija às farmácias com uma ementa gourmet de medicamentos passada pelo médico, mas depois não tenha dinheiro para passar sequer da “entrada”.

Neste País, onde a caridade foi transformada em negócio de Estado ou à sombra dele, há idosos que continuam a ser vítimas do nosso egoísmo, da falta de vizinhança, da incapacidade de olharmos para além do fardo que, pelos vistos, representam.

Este País, de facto, não é para velhos.

Mas pergunto: será para novos? Está aí a “geração parva”, já precária antes de chegada à idade em que se percebe que a precariedade é uma coisa garantida pela passagem do tempo.

A idosa de Sintra foi descoberta por causa de uma dívida. Na vida, já dizia o outro, temos duas coisas garantidas: a morte e os impostos. A frase assenta bem a um País onde os velhos são deixados à sua sorte e os recém-nascidos serão obrigados a ter número de contribuinte antes de saberem dizer “Papá”, “Mamã” ou “Sócrates”.

M.C.

(A foto é de Nuno Marques)

A Devida…na VISÃO – XXXVII

Formas não radicais de acabar com a abstenção

Mais de cinco milhões de portugueses não votaram nas Presidenciais. E só um quarto da população votou no senhor que ganhou. Como eu os entendo. Quem fosse dar um passeiozinho ao shopping, nem uma mesa de voto tinha por perto, caramba. Na televisão, de resto, havia povo eriçado com um cartão único na mão que, além de não dar descontos, se revelou pouco simplex na hora do voto. Em Lisboa, até se votou num stand de automóveis mas, lamentavelmente, nem sequer um triciclo havia para sortear.

Não me parece bem.

Portugal tem um problema abstencionista. É uma coisa duradoura, tipo reumático. Uns chamam-lhe “indiferença”, outros “sinal de protesto”. Errado. O caso clínico português abstencionisto-baldas é um problema de estímulo. A receita já nos tinha sido dada por Maomé: se o povo não vai ter com a política, vai a política ter com o povo. E em Portugal, Maomé leva vantagem sobre a maioria dos candidatos, pois é tão conhecido como o presunto.

Na verdade, a política não tem estado onde deve e exibe um fatal desconhecimento dos hábitos e aspirações do seu povo.

Desde logo, não faz sentido que, para votar, as pessoas tenham de se dirigir maioritariamente a escolas. Os mais jovens já lá passam uma boa parte da semana e esse é de certeza um sítio onde não querem ir ao domingo. Alguns mais adultos, tendo passado por lá, não aprenderam nada. O sítio, está visto, não é atrativo. E o mesmo vale para as juntas de freguesia. Quem quer reservar o domingo para passar num sítio onde só há editais a falar da peste suína?

As eleições deveriam ser todas em janeiro, por alturas dos saldos. Dispunham-se mesas de voto pelos principais centros comerciais e ruas da moda e cada boletim de voto dava direito a descontos nas principais marcas. Pelo meio, podia organizar-se o concurso do melhor eleitor Zara ou um casting de acesso a uma série instrutiva tipo “Morangos com Açúcar, entre São Bento e Belém”.

Futebol e eleições também deveriam poder conviver, que diacho! As mesas de voto às portas dos estádios podiam ser uma solução, desde que cada boletim depositado na urna desse direito a duas cervejas e um balde de tremoços.

Mesmo o Santuário de Fátima deveria abrir portas em dia de eleições, dando assim sinais de compromisso divino com a democracia. Por cada voto, acendia-se uma velinha e quem quisesse podia levar para casa o seu Aníbal de cera ou seu Alegre brise contínuo.

Os jovens deviam poder votar por antecipação. Ao sábado à noite, claro, para evitar ressacas prejudiciais à saúde da nossa democracia. Os bares e discotecas funcionavam como secções de voto e o boletim colocado na urna dava direito a duas bebidas de cápsula com amendoins por conta da casa.

Não há também qualquer razão para que as urnas não estejam às portas dos cemitérios, uma vez que, pelos vistos, dez por cento dos mortos ainda vota no Continente e ilhas. Na Madeira, parece que o caso é ligeiramente diferente: os mortos, além de votar, pelos vistos até podem ser eleitos, dado o seu jeito para parecerem eternos e bem conservados, ainda que em vinha d´alhos.

De resto, muito menos se percebe que não haja mesas de voto à entrada dos hipermercados. Por cada sarrabisco no boletim, um bolo-rei. Uma toalha de mesa. Ou até um salazar, que faz sempre falta numa casa. Por pouco mais, caros concidadãos, já há ofertas de crucifixos e faqueiros nos jornais.

Por último, e porque sabemos que há sempre uns abstencionistas empedernidos e com palanque de jornal, poderíamos abrir algumas exceções. Uma mesa de voto na mesa do costume do Gambrinus, por exemplo, poderia ser um bom método, quem sabe.

São pequenos exemplos – contributos cívicos, diria – para responder ao grave problema de que enferma a nossa democracia. São medidas urgentes para revitalizar o regime e o País. Caso contrário, mais vale seguir o exemplo da Gralheira: põem-se dois bois à porta e fecha-se a tasca.

M.C.
(na Visão, já se usa o acordo ortográfico)

A Devida…na VISÃO – XXXVI

WIKILEAKS, IDIOTAS ÚTEIS E JORNALISMO DE SALÃO

As primeiras e sensíveis revelações diplomáticas a partir da suculenta matéria-prima facultada pela organização Wikileaks não se limitam a mostrar-nos o mundo em cuecas. Servem igualmente para trazer à tona o jornalismo de salão e os idiotas úteis de turno.

Este é, desde logo, um relevante serviço público num tempo de retóricas estafadas, anestesias várias e conformismos encartados. E a procissão ainda vai no adro.

O jornalismo de salão e os idiotas úteis – às vezes, confundem-se e eu próprio já não os distingo, peço desculpa – começaram por não ficar impressionados com as revelações até agora trazidas a público e contrastadas por cinco dos mais prestigiados órgãos de informação mundiais.

“Já se sabia”, disseram.

Percebe-se o incómodo: os idiotas úteis e o jornalismo de salão convivem sempre melhor com a mentira oficial do que com a verdade revelada. São hábitos que ficam das intrigas do Portugal sentado ou das conferências, cimeiras e passarelles político-jornalísticas entretidas a analisar e descodificar acordos, consensos e convenções que, percebe-se agora, servem para pouco ou coisa nenhuma.

O jornalismo de salão e os idiotas úteis também se indignaram com a possibilidade da revelação de tais documentos colocar em risco vidas humanas. Estão por confirmar as razões para tal receio, mas alguns porta-vozes não diriam melhor.

De resto, como todos sabemos, a contabilidade de vidas humanas só se faz no papel. Tudo o que sejam guerras em nome de coisas que não se encontram – armas de destruição maciça, por exemplo – não contabilizam mortos, mas sim…”danos colaterais”. O que é sempre mais higiénico.

À liça veio ainda o problema dos documentos revelados fragilizarem as democracias e “protegerem” as ditaduras.

Ao contrário das ditaduras, eu pensava que as democracias eram mais frágeis e saudáveis pelo facto de poderem – e deverem – ser escrutinadas. Nas democracias, governa-se em nome do povo e para o povo. Tanto quanto me lembro, parece que é assim. E isso inclui a diplomacia. Mas ao ler alguns telegramas das embaixadas confesso que eu próprio tenho dúvidas.

Esclareço já: para mim, o Wikileaks não é uma religião, nem defendo a beatificação de Assange. O jornalismo é a minha praia e sei que, da maré vaza à maré cheia, todas as fontes têm interesses, uns mais obscuros do que outros. Por isso, se descontarmos alguns desvarios, ignorâncias e caricaturas estampadas nos documentos, o serviço prestado pelas cinco publicações que estão a divulgar os documentos da Wikileaks é inestimável.

É claro que, se dependesse do jornalismo de salão e dos idiotas úteis, a História seria apenas um desfile de vaidades, um folhetim de irrelevâncias e uns conflitos de alcatifa. Tudo devidamente condensado e filtrado conforme as conveniências e os responsáveis do momento.

Acontece que o jornalismo – sentado ou de pé, mas sempre de espinha direita – deve ser uma inconveniência. Sobretudo, onde houver uma verdade escondida cuja revelação contribua para a maturidade das democracias, o esclarecimento público e uma cidadania responsável.

Katherine Graham, mítica proprietária do Washington Post, disse: “Vivemos num mundo sujo e perigoso. Existem algumas coisas que o público não precisa de saber. E não deve. A democracia floresce quando o governo pode tomar medidas legítimas para manter os seus segredos e quando a Imprensa pode decidir se quer imprimir o que sabe”. A conclusão é minha: quando os métodos se tornam ilegítimos e a podridão substitui a decência, a verdade deve ser impressa. Dê pelo nome de Watergate ou Wikileaks. E não vale a pena, do alto da cátedra, tentar confundir isto com práticas de simpatizantes do jornalismo ao serviço de uma irresponsabilidade umbiguista e do voyeurismo reinante.

O mundo está perigoso? Está.

E a julgar pelo que vamos lendo dos tais documentos, mais perigoso ainda do que sabíamos. A verdade, afinal, é sempre melhor – e mais complexa – do que a ficção ou uma vulgar teoria da conspiração. Ao contrário do que pensam os idiotas úteis e o jornalismo de salão, não é a verdade que ameaça a paz, a estabilidade e a segurança internacionais. É a ilegitimidade dos métodos e das acções. Quase sempre, em nome de mentiras convenientes e falsidades mercantis. E se mais não sabemos, talvez o jornalismo de salão e os idiotas úteis possam dizer-nos porquê.

Discute-se agora para onde vamos.

Dou uma ajuda: esqueçam Marx e Steve Jobs, Che Guevara ou Bill Gates. Ou então misturem tudo isso e mexam bem. O presente e o futuro escrevem-se já, para o bem e para o mal, a uma velocidade furiosa, encriptada e subversiva. Em coffee-shops, caves medonhas, sótãos ou num vão de escada, gente rebelde, de gola alta ou mochila a tiracolo, de ganga coçada e fato-de-treino, com uma ginástica mental sem precedentes e uma invisibilidade quase total, terá o refinamento, os meios e novas velhas causas pelas quais lutar. A primeira guerra cibernética começou. Virão mais. Como diria o outro, habituem-se.

M.C.

A Devida…na VISÃO – XXXV

À mesa dos orçamentos

Não sei se já repararam, mas começa a fazer cada vez mais sentido a expressão “à mesa do orçamento”. O que só espantará quem ande distraído e não tenha percebido que, em Portugal, tudo se resolveu sempre entre uma garfada e um copo.

Já tivemos o orçamento do queijo com António Guterres.

E temos agora o orçamento do tofu e do leite achocolatado de Sócrates e Passos Coelho.

À mesa deste orçamento não falta sequer um tempero ideológico. À esquerda, alguns congratulam-se agora com o facto de a Coca-Cola deixar de ser considerada um alimento de primeira necessidade. À direita, há quem veja no consumo de sobremesas lácteas um aburguesamento gastronómico por parte dos pobres e remediados.

Mais estranho é o facto das conservas de polvo passarem de 13 para 23 por cento de IVA, quando se sabe que o molusco é, de longe, o alimento básico da atividade política e financeira do País. Discutam-se, à mesa, os resgates públicos dos bancos privados ou a compra de submarinos e logo o polvo é chamado a fazer parte da ementa. Como já foi sobejamente demonstrado, a face oculta dos negócios em Portugal tem menos a ver com sucata e mais com o sítio certo para saborear o dito bichinho com batatas a murro.

De uma forma geral, quem nos governa habituou-se, durante anos, a viver com orçamentos gourmet. Ainda o termo não havia sido inventado e já os portugueses pagavam, através dos impostos, couro e cabelo por refeições com mais prato do que comida. Caímos, enfim, na realidade. E de forma dolorosa. Pelos vistos, andamos há demasiado tempo a comer com os olhos. E se isto não é verdade, vejam o que andam por aí a dizer uma certa esquerda caviar, o marxismo de tasca e até, por vezes, a direita do faisão.

No fundo, a tragicomédia da pátria é um tema gastronómico desde O Crime do Padre Amaro ao arroz de favas de Jacinto, passando pelo Vencidos da Vida. Não admira, por isso, que a maioria dos portugueses questione, mais do que nunca, como é que alguns continuam sentados à mesa do orçamento enquanto outros, desfeita a ilusão de um País de hipermercado, regressam à sardinha para três.

A dieta mediterrânica, na sua versão escanzelada, é, pois, para levar a sério. À mesa do nosso orçamento, impõe-se a couve-de-Bruxelas. A soberania, essa, é um repolho.

M.C.
(www.visao.pt)

A Devida…na VISÃO – XXXIV

Sabes, José?

Sabes, José? Nos quarteirões da minha cidade, voltaram os pedidos de meio frango com ar envergonhado e dinheiro contado. Na repartição dos correios, diante da minha porta, os funcionários já viram mãos alheias perto do gasganete em dias em que faltou dinheiro na caixa para pagar a pensão do mês. E há mais clientela esperando a sua vez.

Uma tragédia, José, quem havia de dizer que os nossos antigos iam morrer vivendo, de pé?

Também tenho reparado que os carrinhos de supermercado andam menos recheados, sabes? Mas deve ser das minhas vistas, tenho de mudar as lentes, certamente. Uma coisa tenho reparado e essa eu vejo bem: na hora de pagar, algo fica para trás. Um pacote, um algo que vinha e já não vem.

Nas farmácias, os velhos dizem que seleccionam medicamentos por não terem forma nem maneira de pagar a ementa dos remédios gourmet das suas eternas maleitas. Entre a doença, as dores e a boca, escolhem o pão, como não?

Olha, José, vê os portões das fábricas a fechar, o presente a definhar.

No nosso País de misérias e angústias, há um rumorejar a borbulhar, José. Ouve-se por toda a parte, até aqui ao pé, no escritório do lado, na mercearia da esquina ou no balcão do café.

Já não é só futebol, José, o penalty que é ou não é.

São conversas fartas, raivas incontidas, vidas fora-de-jogo à espera da reviravolta que nunca vem para quem sempre joga limpo.

Olha, José, vocês aí no alto discutem números, austeridade, a salvação nacional e a saúde da pátria depois do leite derramado. Mas aqui em baixo, no País terra-a-terra e na nação sem parlapié, há gente com défice de crença e paciência para acreditar de novo na sobrevivência.

Não sei, José, que dias virão a seguir.

Um dia, talvez mais cedo do que julgamos, vão juntar-se os deserdados do futuro, a polícia empobrecida e desprestigiada e os que pouco já tinham e agora não têm nada. Nesse momento, juntos, vão encher a praça. E aí, José, uma coisa eu garanto: não vai ter graça.

M.C.