
WIKILEAKS, IDIOTAS ÚTEIS E JORNALISMO DE SALÃO
As primeiras e sensíveis revelações diplomáticas a partir da suculenta matéria-prima facultada pela organização Wikileaks não se limitam a mostrar-nos o mundo em cuecas. Servem igualmente para trazer à tona o jornalismo de salão e os idiotas úteis de turno.
Este é, desde logo, um relevante serviço público num tempo de retóricas estafadas, anestesias várias e conformismos encartados. E a procissão ainda vai no adro.
O jornalismo de salão e os idiotas úteis – às vezes, confundem-se e eu próprio já não os distingo, peço desculpa – começaram por não ficar impressionados com as revelações até agora trazidas a público e contrastadas por cinco dos mais prestigiados órgãos de informação mundiais.
“Já se sabia”, disseram.
Percebe-se o incómodo: os idiotas úteis e o jornalismo de salão convivem sempre melhor com a mentira oficial do que com a verdade revelada. São hábitos que ficam das intrigas do Portugal sentado ou das conferências, cimeiras e passarelles político-jornalísticas entretidas a analisar e descodificar acordos, consensos e convenções que, percebe-se agora, servem para pouco ou coisa nenhuma.
O jornalismo de salão e os idiotas úteis também se indignaram com a possibilidade da revelação de tais documentos colocar em risco vidas humanas. Estão por confirmar as razões para tal receio, mas alguns porta-vozes não diriam melhor.
De resto, como todos sabemos, a contabilidade de vidas humanas só se faz no papel. Tudo o que sejam guerras em nome de coisas que não se encontram – armas de destruição maciça, por exemplo – não contabilizam mortos, mas sim…”danos colaterais”. O que é sempre mais higiénico.
À liça veio ainda o problema dos documentos revelados fragilizarem as democracias e “protegerem” as ditaduras.
Ao contrário das ditaduras, eu pensava que as democracias eram mais frágeis e saudáveis pelo facto de poderem – e deverem – ser escrutinadas. Nas democracias, governa-se em nome do povo e para o povo. Tanto quanto me lembro, parece que é assim. E isso inclui a diplomacia. Mas ao ler alguns telegramas das embaixadas confesso que eu próprio tenho dúvidas.
Esclareço já: para mim, o Wikileaks não é uma religião, nem defendo a beatificação de Assange. O jornalismo é a minha praia e sei que, da maré vaza à maré cheia, todas as fontes têm interesses, uns mais obscuros do que outros. Por isso, se descontarmos alguns desvarios, ignorâncias e caricaturas estampadas nos documentos, o serviço prestado pelas cinco publicações que estão a divulgar os documentos da Wikileaks é inestimável.
É claro que, se dependesse do jornalismo de salão e dos idiotas úteis, a História seria apenas um desfile de vaidades, um folhetim de irrelevâncias e uns conflitos de alcatifa. Tudo devidamente condensado e filtrado conforme as conveniências e os responsáveis do momento.
Acontece que o jornalismo – sentado ou de pé, mas sempre de espinha direita – deve ser uma inconveniência. Sobretudo, onde houver uma verdade escondida cuja revelação contribua para a maturidade das democracias, o esclarecimento público e uma cidadania responsável.
Katherine Graham, mítica proprietária do Washington Post, disse: “Vivemos num mundo sujo e perigoso. Existem algumas coisas que o público não precisa de saber. E não deve. A democracia floresce quando o governo pode tomar medidas legítimas para manter os seus segredos e quando a Imprensa pode decidir se quer imprimir o que sabe”. A conclusão é minha: quando os métodos se tornam ilegítimos e a podridão substitui a decência, a verdade deve ser impressa. Dê pelo nome de Watergate ou Wikileaks. E não vale a pena, do alto da cátedra, tentar confundir isto com práticas de simpatizantes do jornalismo ao serviço de uma irresponsabilidade umbiguista e do voyeurismo reinante.
O mundo está perigoso? Está.
E a julgar pelo que vamos lendo dos tais documentos, mais perigoso ainda do que sabíamos. A verdade, afinal, é sempre melhor – e mais complexa – do que a ficção ou uma vulgar teoria da conspiração. Ao contrário do que pensam os idiotas úteis e o jornalismo de salão, não é a verdade que ameaça a paz, a estabilidade e a segurança internacionais. É a ilegitimidade dos métodos e das acções. Quase sempre, em nome de mentiras convenientes e falsidades mercantis. E se mais não sabemos, talvez o jornalismo de salão e os idiotas úteis possam dizer-nos porquê.
Discute-se agora para onde vamos.
Dou uma ajuda: esqueçam Marx e Steve Jobs, Che Guevara ou Bill Gates. Ou então misturem tudo isso e mexam bem. O presente e o futuro escrevem-se já, para o bem e para o mal, a uma velocidade furiosa, encriptada e subversiva. Em coffee-shops, caves medonhas, sótãos ou num vão de escada, gente rebelde, de gola alta ou mochila a tiracolo, de ganga coçada e fato-de-treino, com uma ginástica mental sem precedentes e uma invisibilidade quase total, terá o refinamento, os meios e novas velhas causas pelas quais lutar. A primeira guerra cibernética começou. Virão mais. Como diria o outro, habituem-se.
M.C.
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