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Arquivo de etiquetas: Ainda há futuros como antigamente?

Ainda há futuros como antigamente? – XXV

Repto difícil, este, de futuros como antigamente! Lanço-me desenfreado nesta busca e procuro um relógio que dê voltas para trás, marcando sempre uma hora que ainda esteja para vir! Uma catrefada de correntes afectuosas surgem em perspectiva quando olhamos para trás.
Um sorriso esboça-se ou, mais vezes do que gostaríamos, uma lágrima desliza face abaixo.

Inevitavelmente é na infância que procuro os meus futuros!

Estas coisas não são assim tão simples, como parecem! Sempre que me deparo com o horizonte no mar, revejo-me criança apoiado num bola, como um barco à deriva. Procuro, almejo uma ilha onde ancorar e que me prometa todas as aventuras. Lutas desenfreadas contra Poseidon, para acabar, inevitavelmente, transportado pelas almofadas do sonho nos braços de uma sereia! Nesse tempo, ainda faltavam os encantos de um entrelaçamento de pernas e lutas de pés na sofreguidão de aquecimento das noites mais frias. Por isso umas belas barbatanas me encantavam!

Os desígnios de uma vida adulta ainda estavam demasiado distantes.

Conversas intermináveis com o panteão dos deuses, aceitando uns, expulsando outros, como um menino mimado que se zangou com o companheiro de escola. Desafiando o imposto, aceitando o estranho para depois escrever palavras feias nas portas das igrejas e fugir com um sorriso traquinas!

Um futuro e um passado que, de tão mesclados, não sabem quando surgiu o constante espantar com o bater de asas dos pássaros que voam! E perguntar, porque raio, eu não consigo fazer aquilo!?

Os cheiros e sabores que ficaram intrinsecamente ligados à minha história cujos frascos vou destapando para satisfazer todas as minhas gulodices

Todas aquelas horas em que fui simplesmente estúpido para me rir de mim mesmo.

O nunca ter-me conformado de não ter sido picado por uma aranha radioactiva.

A descoberta constante do amor e das palavras primitivas que o expressam. Um beijo constantemente renovado.

Que horas marca o relógio? Não importa…não uso. Não dá voltas para trás.

k.
www.ondecoisaestranhanadaacontece.blogspot.com

(a imagem é de Luiz Fernando Mello)

 
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Publicado por em 2 de Janeiro de 2010 in devida comédia

 

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Ainda há futuros como antigamente? – XXIV

O meu futuro entrou dentro do presente!

Foi antecipado, coisas que não se controlam, o futuro não se controla, o meu futuro começou às 30 semanas, quando estava cheia de líquido amniótico e tiveram que arrancar-me do útero da minha mãe.
E entre esse futuro improvável começava o meu presente.
O meu futuro há 6 meses atrás era nascer agora, nesse futuro previsível, mas como nesse não se manda nem comanda, saltei cá para fora com apenas 7 meses e com o meu coração a disparar.

Aí começa a luta!
Sim, temos que lutar todos os dias do nosso presente, para que o futuro seja ele por si um espaço que vamos atingir.
Comecei os primeiros dias da minha vida numa incubadora, cheia de fios, rodeada de máquinas que apitavam a qualquer momento, aí tinha o amor dos meus pais, sempre presentes, a aprender este novo futuro, as equipas médicas a rodearem-me e a administrarem-me todos os medicamentos necessários, e os amigos lá fora a torcerem, a rezarem (os que acreditam, e os que não acreditam), a pedir para eu ser forte, e lutar por um futuro.
É assim que eu vejo o meu futuro, acabadinha de nascer numa luta pelo que queremos, acreditamos, com força e apoio dos que nos rodeiam, quer nos conheçam ou não.

Com apenas dois meses, posso dizer que já experimentei a competência da medicina destes tempos, a gratuitidade do serviço nacional de saúde, andei numa ambulância para recém-nascidos do INEM e senti o carinho de todas as equipas de saúde que me acompanharam, com isto tudo só posso acreditar que a Humanidade aonde vim parar tem pessoas excepcionais e serviços que funcionam.

Neste tempo todo, tive algumas complicações, mas com toda a minha vontade, amor, querer e confiança que me davam eu ia acreditando todos os dias que conseguia vencer mais uma etapa.
E é assim que temos que enfrentar o futuro desconhecido, por muitas estradas secundárias, com mais ou menos curvas. É ter confiança no colo que nos dão, para depois conseguirmos caminhar sozinhos.

Eu não sou do tempo dos peões, nem dos berlindes, nem tampouco do pão com marmelada na lancheira, mas sou do tempo do agora, onde é possível ter isso e muito mais, onde se pode procurar ajuda numa página da net, como num telefonema para um amigo, onde as incubadoras são aquecidas, e os médicos cada vez mais experientes.
Eu nasci na era tecnológica, dos telemóveis, sms, onde já poucas cartas se escrevem, mas ainda existem, onde não há lousas e qualquer dia nem cadernos. Eu sou da era dos computadores, smartphones e dos downloads, e de tudo ainda que a mente humana irá inventar. Mas tenho a sensação que também nasci na era do amor, que não precisa de invenção, existe, tem-se e dá-se, dos abraços, onde todos se juntaram e perguntavam por mim. Eu nasci na era do colo, dos sorrisos, da família e rodeada de amigos
_________________________________e onde não falta isso, há futuro!

Dalila
www.farolnoventodonorte.blogspot.com

(a foto é de António Araújo)

 
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Publicado por em 31 de Dezembro de 2009 in devida comédia

 

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Ainda há futuros como antigamente? – XXIII

Conjugar-te

«Menina, pensa no futuro». Sempre, sempre, sempre. Os outros estão sempre a impor-nos futuro, futurologia. «O que queres ser quando fores grande? Onde queres passar as férias? Quando arranjas namorado? Quando casas? Quando tens filhos? Quando tens netos? Vais querer ser enterrado ou cremado? Como gostarias que te recordassem?»

Tu dás-me presente. E é isso que quero de ti. A tua presença, quando nos apetece. Contigo não me aprisiono nem ao sonho, nem à desilusão. Não quero que o futuro venha a correr, nem que o passado me agarre. Sabemos que o que temos é uma intermitência, uma doce fragilidade.

Preciso do parêntesis onde nos colocamos, desta barragem contra o futuro. Não falamos no vindouro, nem no passado. Deixamo-nos ir. Não esqueço as tuas mãos a taparem-me a boca, como quem diz: «Não metas filtros, silencia o teu censor, sente apenas. Sente-me». E eu deixo-me ir. Por não te esperar, por nada esperar de ti, tenho-te.

Amanhã vou surpreender-te. Falar-te-ei de futuro. Porque irei mudar, mudar-me. E vou continuar a querer presente e não melancolia ou ansiedade. Sei que a distância geográfica vai inibir-nos a espontaneidade. A lonjura vai fazer-nos pensar em futuro de tanto presente passado um com o outro. À distância resta-nos um caminho: um passo à frente ou um passo atrás. Vou antecipar-te e dar um passo atrás. Coisas de quem precisa de proteger o miocárdio (que seja).

Comigo longe, já não vais poder ligar-me a dizer que daí a 15 minutos vais passar por perto e que queres ser comigo. Os teus lábios não vão procurar os meus, ansiosos por um silente diálogo. Nem eu vou perguntar-te se estás pelo hospital e se podes descer até ao bar para um café nos tomar os gestos. Nem tu, de seguida, me convidarás para jantarmos juntos, dilatando a pausa no trabalho. Tu estás habituado a lidar com o presente. Interessa-te o aqui e agora do doente. Trazes contigo a urgência do agir. Sabes a exacta medida de um minuto, quando sais ao serviço do INEM. Estás habituado a ter vida entre as mãos. Por isso gosto tanto de sentir a palma da minha mão entregue à tua.

É perante o passado que eu ajoelho a minha vida. As escavações arqueológicas acendem-me o olhar. Tu gostas de mim assim, com pó nas veias e mãos na compreensão. Até já topaste o meu tique de, volta e meia, ao conversarmos ou ao caminharmos na rua, eu teimar em olhar para trás. Atribuis as minhas frequentes dores de barriga a uma congestão de passado. Lanças-me o teu humor: «Ó minha Cleópatra, lá estás tu com as tuas melan…cólicas!»

Amanhã. Amanhã, vou dar-te um abraço e sussurrarei aquela frase que sublinhaste no livro que tens na mesa de cabeceira: ‘Se jamais dois forem um, então nós’. Amanhã, irei atirar-te com o Antigo Egipto. Depositar-te-ei nas mãos aquele escaravelho de ouro que encontrei num antiquário, na rua onde, pela primeira vez, os nossos dedos se entrelaçaram como rede de pescar ternura.

Vou mentir-te. Vou dizer-te que te ofereço o escaravelho apenas por ser giro (ai como tu detestas esse adjectivo!). Vais ficar a olhar para o escaravelho, com a sobrancelha direita arqueada a censurar-me por ter gasto tanto dinheiro num objecto em ouro. Sei que a tua curiosidade irá chegar à simbologia.

Com o escaravelho irei pôr-te nas mãos a eternidade.

Agora, tão agora, sinto-me cobarde por não te conjugar no futuro.

Raquel
www.mulhercomestivel.blogspot.com

(a foto é de Alberto Viana d´Almeida)

 
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Publicado por em 30 de Dezembro de 2009 in devida comédia

 

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Ainda há futuros como antigamente? – XXII

Aos meus Amores……que são o meu futuro todos os dias.

O futuro já foi… o peito da minha mãe, o olhar do meu pai, a minha irmã pequenina, o bibe da escola, a mochila, o saco de pano bordado para levar o pão com marmelada para a escola, a lousa e os livros, o recreio da escola, as férias de verão, o andar com os amigos, uma escola, outra escola, ainda outra escola, as prendas de Natal, a televisão a cores, a aparelhagem de música, os discos de vinil, não ter horas para chegar a casa dos pais, estudar fora.

Depois, sem nos darmos conta, o futuro estava nos olhos daquela menina, e depois nos olhos de outra. O primeiro filho, todos os filhos. Durante essa época, passou a ser a casa, o trabalho, as férias do trabalho, outra casa, outro trabalho, as férias desse trabalho. A escola dos putos. De repente deixou de haver futuro, porque só havia presente. E muita gente a passar, a passar de futuro a passado sem nos darmos conta, até que voltou a haver futuro, onde já nem passado havia.

E o futuro volta a ser um peito de mãe, um colo de pai, uma irmã pequenina, uma promessa de vida realizada, e Amor. Não há futuro sem Amor.

E nestas linhas, que a cada palavra são passado e a cada imagem presente, vejo o meu futuro, não como antigamente, mas como memória do que há-de vir. O passado foi o nosso futuro possivel, antigamente. O futuro é, como deve ser, como antigamente, o amanhã de Esperança, a Felicidade dos Amigos, um abraço sentido, um reencontro, todas as partidas, o chegar sem ter partido, o estar com os nossos.
Terá dor, e perda e morte, porque o futuro é assim, não sente, só nós o sentimos, enquanto passa numa brisa constante que ora é calma e morna ora se torna em tormenta que gela.

Ou haverá muitos futuros? Um para cada encruzilhada da vida? Talvez, do futuro só sei que o fazemos um bocadinho todos os dias, e que os atalhos que a vida contém, só os fazemos uma única vez. Não sei o que é o futuro, se a nossa memória vivida, se o passado dos dias que vêm. Ou ainda só haverá um futuro, inscrito no peito e na alma, sem hipótese de fuga, a obrigar o nosso caminho e traçá-lo nas nossas costas? Será esse futuro-fado verdade? Não sei, também.

E hoje? Que há? Há passado, tal como antigamente. E futuro, também como antigamente. E o futuro continua a passar, cada vez mais passado, cada vez mais presente. E o futuro volta ao passado, volta aos olhos desta menina e ao sorriso de outra, pequenina, de tão grande que é.

E o futuro e o antigamente vivem dentro de nós. A memória do que fomos e somos e a centelha do que viermos a ser. Um bocadinho todos os dias. O futuro é a Vida, que nos vai fazendo e desfazendo, até um dia sermos finalmente nós.

Para o autor do desafio, deixo-o com a letra de um Fado, encantadoramente “kitsch”, cantado pelo enorme João Correia, reencontrado numa das curvas da Viagem, em dueto com o Fernando João, num dos meus futuros passados:

É tão bom ser pequenino / ter Pai, ter Mãe ter Avós / ter esperança no Destino / e ter quem goste de nós…

Ricardo
www.estanteacidental.blogspot.com

(a autoria da foto é de Bafejada)

 
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Publicado por em 29 de Dezembro de 2009 in devida comédia

 

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Ainda há futuros como antigamente? – XXI

RODA DENTADA

Sento-me entre as tralhas que ainda restam de uma despida casa em mudanças. Abro o portátil e a seguir o Word e, ali, o textoMiguel.doc. Ando há umas semanas com o documento para trás e para a frente, com uma série de apontamentos e parágrafos lá escritos, uns a bold, outros em itálico, apagadas que foram as tentativas anteriores de responder à questão “ainda há futuros como antigamente?”. A resposta – agora que abriu o documento – parece-me óbvia, mas como o dizer?

Está aqui uma parte muito pessoal, que vou apagar. Seria uma boa forma de responder, mas já lhe dei tantas voltas… Não consigo. Os blogues não são já tão pessoais. Aquela do O. gostava de usar. O O. disse-me uma vez – pensava eu fechar o meu primeiro blogue, descrente que estava com a utilidade daquilo – que a blogosfera e a democratização da opinião tinham criado neste país amorfo, uma espécie de anomia constante.

O O. é um velho revolucionário – um libertário à europeia, dos que defendem a revolução pela revolução. “Sentes-te mal com alguma coisa, desabafas no blogue e está feito”, sintetizava. “Não vais para a rua reclamar o que é teu, fazes uma petição. Não vais protestar contra a carestia de vida, tentas esquecê-la ao som de umas músicas no Youtube”. É um provocador, com amigos ainda mais. “Não vais ler o Marx, compras uma t-shirt catita do Che”. “Assim não vamos a lado nenhum”. Para ele, os blogues eram como o «No Future» que escrevi, sem perceber muito bem, nas paredes do Rodrigues de Freitas. E será mesmo No Future? Caramba, penso agora, quando fui trabalhar com ele na rádio pirata, disse-me para eu pôr a música que quisesse, falar com quem quisesse, dizer o que quisesse. A rádio pirata era o meu blogue teenager. Caramba, a rádio promoveu uma manifestação em Santa Catarina, mas não foi nos comentários de um blogue que marcámos uma manifestação contra a invasão do Iraque, em 2003?

Talvez o O. não seja apenas um velho revolucionário, talvez seja um revolucionário velho, dos que são engolidos pelas próprias revoluções. Vamos sempre a algum lado, se não sofrermos de anomia e se não formos amorfos. (aqui entrava mesmo bem aquela parte mais pessoal) Ou rodopiamos como uma roda dentada.

Ficava bem concluir com aquela frase que gostei muito de escrever: “Espero não ser engolido por nenhuma revolução, e continuar a ter saudades, como antigamente”, mas quero dar mais substância à resposta, não sei se assim respondo ao Miguel…

- Papá, ainda estás no computador? Não vens tu ler-me a história?
- Já são nove e meia? Vamos lá filhote, amanhã acabo o texto.

Filinto Melo
blogue pessoal em http://filintomelo.net e microblogue no http://www.twitter.com/esgravatar

(a foto é de José Gusman Barbosa)

 
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Publicado por em 17 de Dezembro de 2009 in devida comédia

 

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Ainda há futuros como antigamente? – XX

E porque o tema toca as almas de diferentes formas, é favor clicar em http://www.vimeo.com/8200191

embasbacante (Inês para os amigos)
http://admiropasmo.blogspot.com/

 
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Publicado por em 16 de Dezembro de 2009 in devida comédia

 

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Ainda há futuros como antigamente? – XIX

Striptease

O meu pai chama-me “Coração matabu”. “Coração matabu” será “coração matou-te” em crioulo badiu. Pergunto-me: que diabo de canção era aquela que em criança tanto trauteava ao pedir/receber corações de galinha – que julgava investidos do poder de me fazerem boazinha?! Onde a terei ouvido?

Os meus irmãos chamam-me “Feidão”. “Feidão” significava feijão na linguagem inventada pela minha infância. Ainda agora, a palavra me traz um cheiro, um sabor, um jogo. Hum… Sopa de couve. O meu irmão mais velho a pescar todo o feijão que caíra no seu prato e a depositá-lo no meu prato.

Às vezes, os meus irmãos chamam-me “Chaga”. Uma ferida aberta? Uma fonte de maçada? Fecho os olhos. Cavalitas apressadas. Cicatrizes açucaradas. Lenha para acartar. Uvas para pisar. Batatas para juntar. Cócegas, cócegas, cócegas, riso, riso, riso.

A minha irmã chama-me “Mana”. “Mana” foi a primeira palavra que disse. Estava na varanda da sala, descalça, dentro de um vestido branco – o polegar na boca, os olhos carregados de sono, o cabelo anelado. Ela era “a” tarefa. “Escolhera-a” mal a vira na maternidade.

Quem serei agora? Coração matabu? Feidão? Chaga? Mana? Ana. Ana como a minha avó Ana, que eu chamava “a avó gorda”. Às vezes, de coração doído, como se nele houvesse uma ferida aberta. Outras vezes, de coração sorriso, como se em frente a ele houvesse uma sopa de couve-galega com feijão vermelho.

Respondi (respondo) por outros nomes a outras vozes. Vozes de amores idos. “Raiozinho de sol”. “Pitufa”. “Basca”. Vozes de amizades que ficaram. “Metaleira”. “Jimmy”. “Mente despenteada”. “Cara de criança”. Vozes de trabalho. “Mafaldinha, a contestatária”. “Jornalista dos pobrezinhos e dos oprimidos”. Cada nome que nos é dado dirá um pouco sobre quem somos – ou fomos. E eu sou estes nomes todos, sou nenhum deles, sou todos os que virão.

Ana Cristina Pereira
http://meninosdeninguem.wordpress.com/

 
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Publicado por em 14 de Dezembro de 2009 in devida comédia

 

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Ainda há futuros como antigamente? – XVIII

Porque o futuro de um pai reside no instante em que mergulha nos olhos do seu filho…

Estás sentado na tua cama, ainda pequenino, ainda rodeado de grades que te protegem, para que não caias, para que não te magoes. Ao longo da tua vida, serás tua a construir essas mesmas grades, as tuas protecções. Para te protegeres dos outros, de ti próprio ou do chamado “futuro”.

Vives numa época em que nos preocupamos constantemente com dois conceitos: a vida e o futuro. O que fazer da minha vida? Como será o meu futuro? E, o mais giro no meio disto tudo, irás ouvir, ler e sentir milhares de definições diferentes sobre vida e futuro.

Tu terás a tua.

A vida é uma escalada. É uma montanha que está mesmo à tua frente e que, pura e simplesmente, tens de conquistar lentamente, pacientemente, amorosamente. Primeiro conselho: não olhes para cima; sentirás algo do tipo “vertigens ao contrário”. Não conseguirás ver o fim da montanha, felizmente. A montanha é tão alta que os teus olhos perder-se-ão nas núvens que a rodeiam. Neste início de aventura tens alguns ferramentas e algumas palavras dos teus pais. Nunca estarás só e algumas destas ferramentas irás utilizar durante toda a tua escalada. Verás que cada ferramenta tem o seu uso em diferentes fases da tua viagem.

Nós já estamos um bocadinho mais acima; sabes, já andamos cá há mais algum tempo. Olhamos-te um bocadinho de cima, mas nunca longe de ti. Sobretudo, estamos sempre a olhar para ti e a lançar, para ti, algumas cordas de segurança para esta escalada. Algumas cordas irás ver, tocá-las. Outras parecem-te invisíveis mas embrenham-se totalmente em ti. Chamam-se Amor e Tranquilidade. São cordas tão fiéis, tão fortes, tão indispensáveis. Estarão ali a segurar-te a nós mas, também, tantas vezes, por nós. Porque não imaginas como tantas vezes precisamos de te sentir.

Verás ao teu lado, acima de ti, abaixo de ti, outros que também partilham contigo esta escalada. Terás também com esses homens e mulheres outras cordas, outros filamentos que vos unem. Homens e mulheres com um nome: Amizade. Convém saberes que nem todas essas cordas terão a mesma força ao longo do teu Futuro. Umas serão fortes como o aço, outras meras palhas. E verás que, às vezes para teu bem e dos amigos, terás de largar algumas dessas cordas e para sempre recordarás as gargalhadas que tiveste com eles. Honrarás tais momentos, eles serão o eco do teu contentamento ao longo da vida.

Pouco mais tenho para te contar sobre esta tua caminhada. Darás os teus trambolhões, terás os teus sustos, as tuas façanhas, a alegria por conquistares um pedaço da montanha que te parecia impossível, a tristeza por não chegares mais depressa (não interessa, acredita em mim!). Com tudo isto aprenderás, são os teus instantes, os teus momentos. O teu Futuro é esse, filho. Nunca te esqueças de olhar para baixo, alguém poderá precisar da tua ajuda, de uma corda tua. Cuidado com o que vem de cima, às vezes podes ter como “presente” pedrinhas caídas pela escalada de alguém. Junta essas pedrinhas, serão úteis.

Um último pedaço de conselho: para mim, a verdade, aquela que tu chamas “verdade verdadinha” da vida está em algo tão simples como parar várias vezes ao longo da escalada, sentares-te comodamente, confortavelmente, deixares entrar o ar bom (aquele que cheira mesmo bem) até ao mais pequeno espaço dos teus pulmões e, num pequeno momento de paz com tudo e com todos, apreciar a esmagadoramente bela paisagem que tens pela frente. E se souberes contemplar a beleza no mais ínfimo e no mais grandioso, então o teu Futuro será radioso.

Miguel Gonçalves
www.ooutroladodalua.blogspot.com

 
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Publicado por em 11 de Dezembro de 2009 in devida comédia

 

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Ainda há futuros como antigamente? – XVII

(Os textos vão chegando. Alguns ainda se esperam. Mas há quem se sinta tentado a repetir. É o caso da Paula que, apesar de já ter publicado um texto sobre este tema, enviou outro. Porque sim. E esse é sempre um bom motivo…)

De que vale programar, planear ou agendar futuros, quando a maioria das coisas que acontecem acabam por parecer mera obra do acaso, aparentam ser motivadas por externalidades e são realidades sobre as quais não temos controlo?

As verdades que num dia são inquestionáveis rapidamente se transformam em dúvidas e podem até tornar-se em certezas – mas de uma verdade inversa à que estávamos habituados, ou com a qual contávamos.
Talvez também por isto a verdade continue sem existir, a ser uma mera imagem que vamos criando dentro de nós e que nos permite ir vivendo na ilusão de que existem algumas garantias, ou, pelo menos, aquelas realidades que gostamos de ter como tal: não, a realidade de tal modo não existe que todos os dias acordamos para uma nova, que nunca esperámos ou que, se alguma vez imaginada, era cenário pouco provável.

A única defesa que existe é mesmo olhar de modo distante para nós mesmos e acreditar que é apenas o cenário que nos foi alterado e que temos a capacidade para suportar as intempéries que nos colocam no caminho, sermos imparciais no modo como avaliamos a tal realidade involuntária com que nos deparamos e dizer para nós mesmos que o futuro será brilhante. Só poderá ser!

Paula Vasconcelos
www.fabricainsular.blogspot.com

 
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Publicado por em 9 de Dezembro de 2009 in devida comédia

 

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Ainda há futuros como antigamente? – XVI

Quando me debrucei sobre este tema pensei bastante se, de facto, existem futuros como antigamente.
A minha conclusão é que não! Não existem futuros como antigamente.
Antigamente pensava no futuro como algo distante e inatingível. Agora o futuro está próximo e atingível, e cada vez mais.
Quando era mais nova, o futuro eram os meus pais. Olhava para eles e via o futuro. Depositava neles toda a confiança da minha segurança e bem-estar.
Agora quando olho para o futuro vejo que a confiança da minha segurança e do meu bem-estar recai sobre a minha filha. O futuro passou da responsabilidade dos meus pais para a responsabilidade da minha filha.
Ouvimos sempre: “o futuro está nos nossos filhos”; “as crianças de hoje são os homens do futuro”.
Assim, eu não vejo o futuro como antigamente via.

Claudia Appelt
http://claudia-causadacolcha.blogspot.com

 
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Publicado por em 9 de Dezembro de 2009 in devida comédia

 

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