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Arquivo de etiquetas: Da minha gaveta

Da minha gaveta – XXVIII

Pequeno rascunho de um texto entre parêntesis pedido há tempos para uma composição musical

Aprendi a sinfonia dos silêncios. Das esperas.
Os compassos da lenta descoberta.
Ensaiei a dança das palavras, pura.
E vi o encantamento soltar as asas, reclamando o peito pela cintura.
E veio a ânsia, despida.
E a graça, nua.
E todo este movimento perpétuo, caudal dos dias a querer a lua.

M.C.

 
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Publicado por em 20 de Outubro de 2010 in devida comédia

 

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Da minha gaveta – XXVII

Debaixo da pele, as rugas dos livros, a existência manuseada. No peito, as dobras dos dias, como dedos cegos em página. A palavra secreta é o infinito de uma folha em branco. Onde a vida possa.

(a foto é de Fidalgo Pedrosa)

 
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Publicado por em 6 de Abril de 2010 in devida comédia

 

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Da minha gaveta – XXVI


virá o tempo de acender futuros
e de atirar palavras em lume
como gestos fatais.
talvez então incendiar todos os muros
e reescrever na pele os pontos cardeais

M.C.

(a foto é de Idálio Fernandes)

 
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Publicado por em 16 de Dezembro de 2009 in devida comédia

 

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Da minha gaveta – XXV

ALVARO-RIOSECO

Amanhã

Esta noite tenho um poema a mastigar o vidro. E cavalgo a frase ainda na boca. As palavras cansam-se e eu não morro dentro delas. Os silêncios caíram de pé, exaustos. E amanhã o arrebatamento estará, de novo, ao serviço. As promessas mais belas já serão de ontem. Duras, como versos ressequidos. Podes procurar. Não encontrarás sequer um beijo nas gavetas. Nem o que restar de ti, nelas. Agora é tarde, meu amor: já não se põe o avental ao pêlo e a paixão ao lume, mexendo bem.

M.C.

(a foto é de Álvaro Rioseco)

 
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Publicado por em 16 de Novembro de 2009 in devida comédia

 

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Da minha gaveta – XXIV

HUGO-FELIX

Poema da mãe que virá

Um dia, se puderes,
leva-o pelos dedos à terra dos nossos segredos.
Aí, afaga-lhe os sonhos,
mima-lhe os desejos,
ampara-lhe todas as lágrimas.
Arranca-lhe um sorriso no recreio dos afectos
e traz as meiguices pela mão,
como flores.
Ensina-lhe, por mim,
as primeiras letras do alfabeto dos sentidos.
E conta-lhe,
no teu jeito de algodão doce,
que só a tabuada das cumplicidades multiplica as razões para amar alguém
e estar vivo.

Sussura-lhe,
embalando-o,
as cantigas que fizeram a história do nosso amor
em construção.
E deixa a melodia trazer-lhe o sonho,
enquanto cavalgas memórias de caixinhas de música.
Cochicha-lhe a receita mágica do colo eterno quando chorar noite dentro.
E nas horas em que te perderes na sua graça,
deixa que ele perceba os primeiros versos de um poema
nos teus olhos.

Explica-lhe,
como puderes,
que um filho é um pai, uma mãe
e todos os momentos que nos pareceram pedaços de imortalidade.
Ensina-lhe que as pequenas utopias dos homens valem mais,
muito mais,
do que a segurança engarrafada dos dias.
Se puderes,
diz-lhe ainda que te amei com as forças em farrapos
e o sonhei num país de maravilhas,
com peito e pensamento sem amarras.

Um dia,
se puderes,
abraça-o com as tuas saudades de mim.
E esconde, meu amor,
que o silêncio só contempla este poema porque a paixão não correu todos os riscos
dessa luta de existir à luz do dia.

(a foto é de Hugo Félix)

 
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Publicado por em 10 de Novembro de 2009 in devida comédia

 

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Da minha gaveta – XXIII

PORTO

Cidade, minha geografia de dentro

Cidade. Mapa de nós, nela. Transfusão de poesia, dia-a-dia. Caminhos de aromas e pregões. Geografia de anseios, máscaras, ilusões. Sombras e espelhos de água, lugares sépia do nosso deslumbramento. Passada adulta, reguila, à cata de itinerários de infância, num lamento. Ronronar de eléctricos, mãos farruscas de castanha assada. Procissões de bola e grandezas de azul. Asas ao alcance da mão, a pontapé. Ao fundo, um rio a tratar-nos por tu, tenrinho aos sentidos, dado como pão. Tardes de redescobertas mendigadas. Beijos madrugadores adiando o trânsito, matinal doçura. Histórias manhosas de tascos e vielas, guinadas de afirmação bairrista, ternura. Metáforas de mão na anca, pronúncia de palavra ao léu, baloiçando na boca dos dias coçados. Manhas da existência, artíficios da loucura. Vidas de trapo, mas vestidas de sentido, ao relento de todas as horas. Heroísmos de estendal de roupa, fazendo caretas a dias baços. Profetas de paixões indomesticáveis, cúmplices de rua. E a menina, nua. Sorrisos, festas, foguetes, martelinhos e amanheceres de maresia e lenha queimada. Estrelas de braços abertos para todos os balões largados pela fantasia, encantada. Rebeldias matulonas, na raça. Eternas meiguices de encartados da desgraça. Tradição. Mão na mão, orgulho de peito feito e aguenta coração. Cidade, quadra da gente sonhadora e simples. Assim vivemos, assim amamos. Eterna ponte para a criança em que moramos.

(a foto é de Hugo Amador)

 
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Publicado por em 4 de Novembro de 2009 in devida comédia

 

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Da minha gaveta – XXII

CAMA-I

Devíamos acordar mais vezes juntos

I
Primeiro, pensei comprar-te um postal.
Desses lamechas que dizem volta depressa.
Depois veio à ideia um amuleto,
para proteger contra a ausência.
Preferi embrulhar-te em palavras,
daquelas que, às vezes, não param em casa,
mas se enfeitam fora, nos livros, para levar como merenda.
Talvez assim as frases possam ter agasalho e mimo.
Ou falar-te ao peito em sussurros.
Deixa que estas palavras te levem.
Mas não as deixes ao frio.
Eu sinto.

II
A comida não me vai saber a nada, já sabes.
Posso tentar caprichar,
fazer de conta que os vapores anunciam pitéu de estalo.
Mas não vai saber a nada.
Não tenho o teatro de nós na cozinha,
a encenação deliciosa de tachos e avental.
Por estes dias,
vou ensaiar de novo a tragédia do meu refugo emocional,
meu monólogo até ao osso, minha vida sem sal.

III
E agora, com quem me aborreço?
Como abraço essa tua mania de passear pela vida,
desajeitando os dias?
Deixaste as luzes acesas.
As migalhas no chão.
A camisola amarrotada.
A toalha fora do sítio.
As minhas noites em desalinho.
As horas, vadias.
Anda.
Tenho saudades de arrumar o teu mundo.

M.C.

(a foto é de Manu Loureiro)

 
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Publicado por em 27 de Outubro de 2009 in devida comédia

 

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Da minha gaveta – XXI

ANDRISD

Juro
Deixarei que escrevas
o lugar
onde se ausentam as palavras
Só as tuas mãos
habitam a pele, o golpe de asa,
e falam das viagens que faltam
Para sermos,
enfim,
A história
De todas as histórias
que nos aconteceram

M.C.

(a foto é de Andrisd)

 
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Publicado por em 21 de Outubro de 2009 in devida comédia

 

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Da minha gaveta – XX

TELELE

Estás lá?

O telemóvel não vai dar sinal as vezes que eu quiser.
Quando não lhe ligo, ele toca.
E agora vou tê-lo vigiado. À coca.
Não me posso afastar muito.
Não quero perder-te quando me chamares. Chamas?
As horas, os dias, vão ficar sem rede.
Talvez possa deixar mensagem.
“O amor para o qual ligou está neste momento desligado”.
Eu tento mais tarde.

M.C.

 
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Publicado por em 16 de Outubro de 2009 in devida comédia

 

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Da minha gaveta – XIX

ESTRADA

FICAR
Quando parte uma parte
Há no nós esse lugar de querer mais um instante.
Por dentro do silêncio viveriamos
Respirando o nada
Enquanto

Mas é no pranto
Que começamos a salvar
O que ainda há de caminho
Esse durante
Inteiro, por amar.

De coração ao lado de uma grande amiga. A tentar que lhe doa um pouco menos o que custa tanto

(A foto é de Paulo Gradim)

 
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Publicado por em 23 de Agosto de 2009 in devida comédia

 

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