
Poema da mãe que virá
Um dia, se puderes,
leva-o pelos dedos à terra dos nossos segredos.
Aí, afaga-lhe os sonhos,
mima-lhe os desejos,
ampara-lhe todas as lágrimas.
Arranca-lhe um sorriso no recreio dos afectos
e traz as meiguices pela mão,
como flores.
Ensina-lhe, por mim,
as primeiras letras do alfabeto dos sentidos.
E conta-lhe,
no teu jeito de algodão doce,
que só a tabuada das cumplicidades multiplica as razões para amar alguém
e estar vivo.
Sussura-lhe,
embalando-o,
as cantigas que fizeram a história do nosso amor
em construção.
E deixa a melodia trazer-lhe o sonho,
enquanto cavalgas memórias de caixinhas de música.
Cochicha-lhe a receita mágica do colo eterno quando chorar noite dentro.
E nas horas em que te perderes na sua graça,
deixa que ele perceba os primeiros versos de um poema
nos teus olhos.
Explica-lhe,
como puderes,
que um filho é um pai, uma mãe
e todos os momentos que nos pareceram pedaços de imortalidade.
Ensina-lhe que as pequenas utopias dos homens valem mais,
muito mais,
do que a segurança engarrafada dos dias.
Se puderes,
diz-lhe ainda que te amei com as forças em farrapos
e o sonhei num país de maravilhas,
com peito e pensamento sem amarras.
Um dia,
se puderes,
abraça-o com as tuas saudades de mim.
E esconde, meu amor,
que o silêncio só contempla este poema porque a paixão não correu todos os riscos
dessa luta de existir à luz do dia.
(a foto é de Hugo Félix)
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