Kamchatka é um filme argentino de 2002. Descobri-o há dias na Fox Movies e ainda vão a tempo de apanhá-lo, creio. Tem o excelente Ricardo Darín (protagonista do oscarizado O Segredo dos Seus Olhos) num dos papéis principais. É uma história, com tanto de perturbante como de encantadora, de duas crianças e seus pais, fugidos à ditadura militar argentina. Toda a tensão, drama e segredos passam pelo filme sem que o filme faça depender o desenrolar da história dessa tragédia que os persegue. No fundo, é um retrato encantador de uma família que ama, vive e luta com um plano de fuga sempre à mão. Um filme belíssimo que a alguns filhos da clandestinidade fará recordar experiências familiares vividas na sombra da ditadura portuguesa. Kamchatka, província russa, dá o título ao filme. Quando pai e filho jogam o «Risco», o jogo em que cada concorrente tenta conquistar o mundo, o pai sobrevive contra o mundo inteiro nas mãos do filho nesse lugar chamado…Kamchatka. Porque há sempre um lugar onde se resiste. Nem que seja dentro de nós. (fiquem com a parte final do filme e a belíssima canção Palavras para Júlia, aqui cantada por Liliana Herrero. Há também uma versão de Mercedes Sosa).
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Filmes perdidos – III
Vi hoje, pela primeira vez, O Esplendor na Relva (1961), de Elia Kazan. Arrebatador. O filme que todos deveríamos ver antes dos 18 anos. Para aprendermos a desaprender as convenções. E tomar nas mãos os instantes decisivos de que falava Sartre. Ah! Natalie Wood está verdadeiramente divina! Quase tanto como a ode que embala o filme…
Embora nada possa fazer voltar a hora,
Do esplendor na relva, da glória na flor,
Não nos lamentaremos, antes procuraremos
a força no que ficou para trás
William Wordsworth, “Intimations of Imortallity from Recollections of Early Childhood”, canto X
Filmes Perdidos – II

Chama-se The Matchmaker (1997) e foi traduzido, com o seu quê de imbecilidade, para Uma Simples História de Amor em português. É um filme sobre uma mulher que, contrariada, é mandada pelo staff de um candidato à presidência dos EUA em busca dos supostos parentes irlandeses do senador na esperança de que isso o faça subir nas sondagens. O problema é que ela cai mesmo em cima de um festival casamenteiro. A história é embrulhada num registo de comédia romântica, mas há ali um recheio de pérolas preciosas e muitas entrelinhas. Para além dos cenários de babar de Roundstone (Galway), a história inclui um punhado de irlandeses talentosos, humorados, divertidos, sensíveis e loucos. E, claro, uma das minhas musas: a portátil Janeane Garofalo, também activista política, cuja voz ainda hoje se faz ouvir contra a invasão do Iraque. O filme passou ontem no canal Hollywood, mas pode ser que ainda o vejam por lá. A banda sonora (sempre uma das minhas perdições) inclui Waterboys e arredores. Um filme bem frequentado, portanto.