Homem ao lume – V

courgettes
Percebi finalmente a diferença entre courgettes e beringelas. Não se riam, vá…Para aqueles que, como eu, andavam privados de tal saber a diferença é simples, meus amigos: a courgette é uma espécie de pepino grandalhão, a armar ao burguês. A beringela é uma coisa mais popularucha e bojuda e, ainda por cima, vermelha (Ai não? Parece que não é vermelha, é cor de…beringela). Cá em casa recebi uma lição rápida e paciente (com risinhos pelo meio, claro) de courgettes recheadas no forno. Tipo canoa, estão a ver? Percebi que nisto de gerir cozeduras o sexo ensina muito: a temperatura tem de ir aumentando lentamente, é preciso deixar apurar e ir mexendo sempre. Desculpem, mas é assim. Não há outra forma de o dizer. Quem quer coisas rápidas – e ninguém diz que não sabem bem de quando em vez – não faz courgettes recheadas. Faz outra coisa e pronto. As courgettes precisam de ser descascadas com sabedoria, que eu bem vi. A cebola tem de alourar e só depois se junta a polpa de tomate e a carne, picadinha, com chouricinho e afins. Tudo muito a arrastar, brandamente, mansamente, mas sem tirar o olhar do objecto de desejo. E ir provando. Então, sim, passado este cerimonial, vem o lume à desgarrada. Sem contemplações. Quando chega à mesa, já não é erótico. É quase pornográfico. De um tipo se lambuzar e chorar por mais.

Homem ao lume – IV

ALHEIRAS
Ainda na ressaca do congresso de alimentação, tenho duas novas dicas para partilhar (se isto, por vezes, parece um blogue de dona-de-casa, é mera coincidência, ok?). Ora então, a saber:

- Uma boa parte das alheiras que consumimos contêm contaminantes potencialmente perigosos. Uma chatice. O problema só se resolve a cem por cento se levarmos as ditas ao forno. Quem teimar nos fritos ou no micro-ondas, fique a saber que dois copos de maduro tinto a acompanhar também resolvem o problema. (Era esta a boa notícia…)

- Agora vamos ao atum, esse alimento, a par do esparguete, que faz a dieta frequente de muitos homens ao lume. No congresso, foi divulgado um estudo sobre o bichinho em posta. Revelou-se, então, que, afinal, é preferível consumi-lo em óleo vegetal ou azeite. Eu, que andei a pregar durante anos o atum ao natural e a converter amigos e amigas, faço daqui o mea culpa. Não é que o atum ao natural seja mau, entenda-se. Acontece é que perde algumas propriedades, como dizem os especialistas. O problema dos estudos é mais ou menos como dizia aquele anónimo, referindo-se a outra coisa: quando pensamos que já sabemos todas as respostas, vem a vida e muda todas as perguntas.

(a foto é de Agostinho Chaves)

Homem ao lume – III

bolacha1
Já pensei fundar a Confraria do Bolo de Bolacha. Tirando aqueles muito amanteigados, consideros os bolos de bolacha os melhores amigos do homem. Se levarem café, para mim até são da família. Gosto deles secos q.b. e com doses substanciais de bolacha (Torrada, de preferência). Claro que, nestas coisas, o melhor é abrir excepções. E perto do local onde trabalho há uma bem tentadora, feita de bolacha quase desfeita e leite condensado. As sobremesas da minha vida resumem-se a leite creme e bolo de bolacha. Com a bolacha caso, com o leite creme amantizo. Nenhum de nós se queixou ainda.

Homem ao lume – II

queijo
O queijo é uma perdição. Comigo, é perdição e meia. Vejamos: os espinafres com queijo, como o próprio nome diz, já vêm com queijo. Pois eu nunca acho suficiente e junto ainda mais queijo. Ralado, dos Açores. Ando a esquecer-me de algumas coisas, deve ser por isso. Mas não importa: o queijo é essencial à minha existência. Sem queijo eu não saberia do meu lugar no mundo. Comendo muito queijo, talvez um dia não saiba mesmo, mas enfim…
Gosto de queijo até atirado contra a parede. Sim, à bruta. Mas há queijos que se querem derretidos, fazendo uso de toda a meiguice. Tem vezes, oscila. Na variedade, está o segredo. Os melhores nacos de amor têm queijo depois. O meu jogo preferido – o Trivial – leva queijo. As minhas memórias de infância, de farnel a tiracolo, têm queijo. As tostas mistas noite dentro, na cama com os meus pais, nos primeiros tempos de filmes alugados no vídeo-clube, têm queijo. A lua, para mim, sempre foi a melhor campanha de marketing do Limiano. Shakespeare tem queijo, sobretudo no Romeu e Julieta (a marmelada é pretexto, personagem secundária). Quem nunca quis ter a faca e o queijo na mão? E quem nunca defendeu sua honra dizendo «pão, pão, queijo, queijo»?
No fundo, eu acho que tudo, na vida, devia levar queijo. Excepto queijo.

A foto é de Maria Portela

Homem ao lume – I

bacalhau.jpg 

Foi a cozinhar um bacalhau para quatro amigos, um destes dias, que percebi finalmente o mistério: de facto, não há literatura que compense aquelas duas horas de cozinha. É uma viagem interior sem paralelo, uma Busca do Tempo Perdido gastronómica, descontada a cábula e o carácter iniciático da coisa. Com Ella Fitzgerald a marcar o compasso, em fundo, o descascar e cortar das batatas aos pedacinhos assemelhou-se a um contro extraordinário. O cerimonial dos lombos cozidos à primeira espuma e depois lascados e enviados para o forno, sem espinhas e peles, daria um romance. Depois, a preparação do molho para gratinar é quase um verso com a cauda de fora, à espera de uma última palavra. Não me fiz rogado. O meu Bacalhau à M. Quando Ela Não Está teve o seu remate poético com dois toques da lavra aqui do je: lascas de manga e folhas de louro apanhadas no quintal. Aperitivou-se à boleia de um bom champanhe francês e de um Vinhas de Porto Ferrado, de Baião, já com um pé a fugir para o maduro. Foi convocado também um tinto de Trancoso, sem rótulo. Agarrou-se a madrugada como se fosse uma criança, como diria o Ary. E concretizou-se resolução envelhecida: abrir uma aguardente, lacrada, supostamente engarrafada pelo professor doutor Oliveira Salazar (ou alguém por ele, vá), a acreditar na palavra da família. Bebeu-se bem, à antiga. Enquanto a aguardente fazia o anel nos copos, pus o Zeca a cantar Venham Mais Cinco. Nestas coisas, convém prevenir. Não vá o «génio» sair da lâmpada.