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Arquivo de etiquetas: Os livros da minha vida

Os livros da minha vida – IV

A primeira leitura foi, creio, nos anos de pré-adolescência. Tal como me aconteceu com outros autores e livros, não tinha vida, nem maturidade para compreender as profundezas de uma obra assim. Tinham-me ficado, contudo, as memórias de uma escrita ao alcance de poucos e uma ligação umbilical ao que há de mais humano e redentor no bicho homem. Pelos anos, comprovaria isso mesmo noutros livros de Alves Redol, nomeadamente do Ciclo Port Wine, cujas primeiras referências devo ao meu querido amigo Alfredo Mendes. Voltei agora a Redol e aos «Avieiros» por razões que se prendem com algumas das minhas investigações. Agora, sim, cabe em mim toda a plenitude deste mestre do neo-realismo, capaz de transformar o mais sofrido percurso dos seres humanos numa epopeia que deveria atravessar gerações, se elas ainda quisessem saber coisas do princípio dos mundos. «Avieiros é romance lírico, de um lirismo doloroso e concreto. Documento e sonho vazados na matriz irregular de uma consciência, há nele um gosto fundo, autêntico e viril, de semear na companhia do povo um país para homens livres», escreveu Redol, em Caxias, em Novembro de 1967. Neste livro, descreve-se a saga dos homens e mulheres que viviam nas margens do Tejo, fugidos à fome e miséria do mar de Vieira de Leiria que, por causa da bravura das ondas, lhes recusava o ganha-pão durante o Inverno. «Nómadas do rio, como os ciganos na terra, tinham vindo da Praia da Vieira e faziam vida à parte: chamavam-lhes avieiros». Um romance notável, arrepiante de humanidade e retrato sanguíneo das tragédias e redenções de um povo. Uma obra baseada em figuras e acontecimentos verídicos, muitos deles presenciados por Redol, que viveu perto destes homens e mulheres durante quatro anos, partilhando remedeios e sendo cúmplice de sonhos. «Na verdade, não se recolhem os materiais da vida: vivem-se. Ou inventam-se. Mas escolhem-se as vivências ou as invenções quando um escritor sabe para que vive. E como lhe importa viver», explicou Redol. No livro, tudo começa com um nascimento, uma nova vida, quando uma mulher pede ao marido uma faca para poder dar à luz, sozinha, nas margens desse rio de sobrevivências…(«Avieiros» custa 5 euros na Feira do Livro do Porto, na versão dos saudosos «livros de bolso» da Europa-América).

 
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Publicado por em 2 de Junho de 2011 in devida comédia

 

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Os livros da minha vida – III

Bem sei que Eça o deixou inacabado. E que muitos consideram não ser esta uma das suas melhores obras. Mas «A Capital» tem um especial significado para mim. Quando o li era ainda um adolescente à procura do seu lugar no mundo, sonhando com palavras e ambientes onde a escrita fosse sempre chão. Este romance revelou-me a fina ironia, a crítica ácida às contradições entre a teoria e a prática, o retrato de uma época de todas as épocas, carregada de falsos valores e postulados que não resistem ao primeiro confronto com as perdições. Carregado de boémia, de sobressaltos de consciência, equívocos e desenganos, o livro conta a história do jovem rural Artur Corvelo que, viajando para Lisboa, abandona as virtudes intelectuais e deixa caior os afivelados princípios que trazia da terrinha nas sua circulação por salões e alcovas de ocasião. Deixa-se o Artur, pois, enredar nos vícios e costumes da vidinha, atirando o resto às malvas. Diz-se que Eça não terminou este romance por considerá-lo muito escandaloso para a época. Seria José Maria d´Eça de Queirós, seu filho, a acrescentar o que entendeu e a obra fez-se. Recomendo-o como livro de cabeceira para os tempos próximos, onde, a pretexto do (des)governo da pátria, iremos assistir à habitual fogueira de vaidades – e desfiles a condizer – restando-nos tentar descortinar um pingo de consistência nas ideias dos homens…e nas suas supostas virtudes.

 
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Publicado por em 7 de Abril de 2011 in devida comédia

 

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Os livros da minha vida – 2

Quem me lê por aqui sabe que não sou propriamente um saramaguiano. Houve livros que deixei a meio e aos quais um dia voltarei (As Intermitências da Morte, por exemplo) e outros que li com mais ou menos entusiasmo (Ensaio sobre a Lucidez foi um deles). Não fiquei cliente dos Cadernos de Lanzarote, os quais me pareceram, demasiadas vezes, uma feira de vaidades. Adiante. Um deles, porém, plantou em mim um entusiasmo literário irrepetível: chama-se Levantado do Chão. Já aqui disse e repito: se alguém tiver que escolher um livro para ler o Alentejo através das suas entranhas basta que leia este. Não precisa de outro. Escrito em grande parte em Lavre (Montemor-o-Novo), onde o escritor foi acolhido numa cooperativa, este romance só foi possível porque Saramago viveu o Alentejo, as suas dores e imaginários, as suas lutas e anseios, numa época de transformação. Toda a galeria de personagens ilustra a caminhada de gerações contra a tirania, a indignidade, a miséria e a opressão. Resumindo: este livro é o Alentejo em carne viva. Os tempos não são, obviamente, comparáveis (a acção decorre entre 1900 e 1975), mas a ironia é que estas páginas, 37 anos depois do 25 de Abril, continuam a transmitir-nos a ideia de que algo – para não dizer muito – continua por cumprir. À espera de quem escreva tempos novos.

 
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Publicado por em 11 de Março de 2011 in devida comédia

 

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Os livros da minha vida – 1

É a minha Bíblia. O meu encantamento permanente. Creio que o li e rabisquei todo, a primeira vez, durante umas férias passadas em São Pedro de Muel, lugar do qual tenho imensas saudades. E memórias. Toda a história da grandeza e da pequenez humana mora nestas páginas. Já não sei quantas vezes o revisitei. Lê-lo é nunca esquecer o outro como ponto de partida para a descoberta do que somos. Neste livro, cabe toda a inocência dos sonhos e as chagas do caminho. Aqui está o Torga todo. Autobiográfico. Inteiro. Duro e terno. Portugal e o mundo, com todas as letras, sem omissões, mas com os esconderijos que, por vezes, o romance permite, pequenas ficções num oceano de verdade. Desfilam palavras secas e raivosas, palavras mansas e sábias, palavras de chão e sonho. A Criação do Mundo, de Miguel Torga, é o «livro de horas» da nossa condição. Tão indispensável aos nossos batimentos como um poema de Pessoa, uma ironia queirosiana ou uma guitarra de Carlos Paredes.

 
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Publicado por em 20 de Fevereiro de 2011 in devida comédia

 

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