
A Egoísta chegou hoje às minhas mãos. Tenho-as cheias de Liberdade. É das edições mais bonitas que já vi e nem sei que fazer aos dedos que passeiam pelas páginas, doidos. Só a ilustração da Ivone Ralha vale este número inteirinho. Mas há mais, muito mais. Acreditem. Sim: a Patrícia Reis é a melhor editora do mundo. Tenho provas. Factos. E belisquem-me, por favor, porque ainda não acredito que estou nestas páginas.
Eu, Mariana é o texto que escrevi para este número.
Uma história, um conto, sei lá bem, que andava atado ao peito há anos. Para ele existe uma explicação. Antes de mais, não é uma ficção. Descontados apenas dois ou três pormenores, é uma história real. Com todas as letras, em todos os lamentos e sorrisos. Com a qual cresci e vivi, sabendo passagens só a espaços, arrancadas a ferros no passar do tempo. Até ter o puzzle completo.
Esta história, estes dias, foram vividos por uma das mulheres que mais admiro na vida. E a sua dádiva, a sua entrega à liberdade contagiou uma família. Nome de código: Mariana. O texto ilustra o porquê dessa admiração, embora não explique tudo sobre tudo o que nela é belo. E único.
Sem pretensões, partilho-o convosco por ser, acima de tudo, muito meu, saído das entranhas e dos soluços de um tempo. E de uma vida.
(E tu, querida Patrícia, ficas a saber: tens-me nas mãos. Por um dia me teres aberto as páginas da revista que inventaste no deserto.)
Eu, Mariana
Lembro-me dos sons da liberdade chegarem de noite, pela calada, arranhados como uma canção usada. A verdade, naqueles anos, tinha um preço alto e era uma palavra que entrava em casa através de vozes raras e roufenhas. Pousávamos uma cafeteira em cima do rádio velho, a fazer de antena, e sintonizávamos o Portugal livre, que existiria longe da vista, mas nunca longe demais para os nossos sonhos.
Tinha 19 anos e era muito bonita, sabes?
Não punha pé na rua sem as sobrancelhas arranjadas com minúcia e um par de horas diante do espelho. Com a idade e os avessos da vida, a gente habitua-se ao desuso do corpo e dos caprichos. Mas ainda hoje morro de saudades do meu corte de cabelo soixante-huitard, falsamente despreocupado, do meu vestidinho de manga curta e saia acima do joelho, com pequenos e rebeldes quadrados coloridos a cinza e preto, e o sapatinho branco de fivela, de fino e curto tacão. Nos meses frios, não largava a boina – já devia ser tique revolucionário – e o meu amado casaco de gomos, que usava com calça branca. Havia ali um ar vagamente queque, é verdade. E sim, os rapazes rondavam-me, mas eu sempre à míngua de tempo para eles, exceptuando um outro «namorico», de amar e largar.
Naqueles anos, já andava metida em sarrabulhos.
Não, nem pensar em contar tudo lá em casa, não se podia. Quantos menos soubessem, melhor.
O meu pai, teu avô, sim, sabia. «Republicano de gema», como ele afirmava sempre que vinha a propósito e a despropósito, estava a par das tertúlias, das agitações estudantis em que me ensarilhava, das noitadas na República dos Lisos, a congeminar. Um dia, mesmo assim, esperou-me em casa, a desoras, com um valente estalo, esganado de preocupação. Disse-lhe então o porquê das minhas ausências cada vez mais silenciosas e fugidias. Ficou hirto de culpa e vergonha, sem dizer palavra. Juro: desde aí, não me lembro de lhe ter voltado a sentir a mão, a não ser em doses fartas de afagos e carinhos, vida fora.
Nesse tempo, eu corria, esgrouviada, bairros e vielas da cidade, em estafetas de distribuição de palavras de ordem, de jornais clandestinos em papel vegetal ou a fazer explodir caixas frágeis de madeira, a que atávamos rastilhos que acendíamos com cigarros mal fumados. Nós, mulherzinhas com ar de adultas à pressa, sempre com a vertigem do «aqui e agora». Quando aquilo estourava, voavam panfletos pelo ar, a cair do céu, mão em mão, sem crime nem testemunhas. Fugíamos das cargas de porrada da polícia e da «grelha» como ratazanas matreiras e ágeis nos subterrâneos da liberdade. Actos premeditados, maduros, disfarçando as irreverências próprias da idade, que faziam com que o Partido elogiasse a nossa coragem e ousadia e nos tivesse debaixo de olho para futuras responsabilidades.
Foi nas excitações e ânsias daqueles tempos que descurei, por uma vez, códigos de segurança. Um dia, numa tipografia onde havia mandado imprimir novas resmas de agitação e propaganda, bufaram o meu nome à polícia. Não deviam demorar a deitar-me as unhas, avisaram-me. E o desafio que se anunciava, veio, por fim, precipitado pelos acontecimentos.
- É agora: ou aguentas o que aí vem, para ti e para a tua família, ou entras na clandestinidade.
Na manhã de um domingo de Maio de 1973, atravessei de barco as águas onde rio e o mar se abraçam até à margem da Afurada.
O coração cavalgava os minutos e eu perdia os pensamentos no balouçar de cada onda (ainda hoje os olhos ficam rasos, húmidos de memórias, quando por ali passo, em dias distraídos). Levava um jornal debaixo do braço, com a data e uma notícia combinada à vista, para estabelecer contacto.
A decisão estava tomada.
Deixaria tudo para trás: família, emprego e identidade. Teria casa e um «marido» também escolhido pelo Partido. Para o disfarce ser completo, havia ainda que recolher uns «tarecos» – mobílias e trapos doados por militantes anónimos – numa garagem clandestina. Pedi apenas para me deixarem festejar os meus vinte anos em casa.
Depois, sim, deixaria de ser quem era.
Tive uns dias, uns breves dias, para tirar do meu quarto o mínimo que considerasse essencial. Sem dar nas vistas. Não imaginas, meu querido, a ginástica que fiz para evitar olhares e perguntas indiscretas da tua avó. Peça a peça, sorrateira, enfiei cuecas, calças, blusas e sapatos em sacos plásticos que entregava, às escondidas, a uma amiga.
Numa sexta-feira, antes da partida, festejei em família o aniversário.
Os teus avós e os teus tios nem perceberam que as garfadas de arroz de frango que levava à boca pesavam arrobas e não me passavam das goelas. Sabes quando não há maneira da comida descer?
Para fugir, inventara a desculpa de um fim-de-semana fora: um qualquer convívio de estudantes, em Lisboa. Preparei à vista de todos um saco de lona com a última roupa. Foi nessa altura que o teu tio António me chamou ao andar de cima…
- Eu sei que te vais embora e não voltas…
Não consegui responder. Chorámos os dois, abraçados, apertados. Irmãos.
Ficaria combinado que as cartas que escrevesse, ele as receberia, por razões de segurança. Decisões do Partido.
Desci, as pernas arrastando as horas.
Ainda ajudei a arrumar a cozinha, entre sorrisos e conversa forçada, os segundos como uma lâmina lenta ferindo a pele. E o tempo.
Depois, desapareci do mapa.
Anos depois saberia que a tua avó ainda quis colocar um anúncio no jornal a dizer «procura-se», quando a ausência já era insuportável e injustificável aos olhos inchados do seu choro convulso. Os teus tios tiveram então de abrir um pouco mais o jogo. Mas ela, eu sei, nunca se resignou. (Talvez entendas agora, meu querido, a razão pela qual nunca quis que a minha mãe, tua avó, acabasse num lar. Até ela morrer, nunca me perdoei por essa partida sem adeus e sem regresso anunciado. E pelas lágrimas todas que lhe arranquei e sulcaram o seu rosto de desgoto).
Eu acabara de fazer vinte anos e passaria a chamar-me Mariana.
O meu disfarce incluía uma casa modesta, um camarada «marido» e uma cabeleira postiça, cheia de madeixas, que acabaria por me fazer cair o cabelo até ao dia em que me fartei dos pêlos ralos e decidi que os pintava. De loiro, imagina tu!
Na freguesia e para as pessoas das redondezas, éramos um casal vulgar, embora muito por casa. Saíamos apenas à noite, um pouco, para nos mostrarmos à vizinhança e evitar cochichos e desconfianças. Eu «dona-de-casa», ele «projectista», em busca de um chão seguro, com «pais» e «sogros» fora de mão, para ajudar à encenação. Dentro deste quadro de aparente normalidade, uma vez por outra aparecia em casa um «tio» distante, de quem, na penumbra da sala, recebíamos orientações para tarefas subversivas.
Detestava esses dias em que aparecia o camarada, sabes?
Era mais uma boca para comer.
Não me arrependia de nada, mas deixara para trás o emprego numa cooperativa livreira, a ganhar dois contos por mês, e remediava agora os meus dias com mil escudos, 500 meus e outros do meu «marido» de arranjinho partidário. Tinha de governar as refeições com um pequeno fogão a gás de dois bicos e tostões contados. Comíamos pão, ovos e massa de bacalhau (era barato nesse tempo), bebia-se leite e cevada. Fruta, era raro tocarmos. E qualquer outro desejo terminava aqui.
Foi aí que ganhei o jeitinho que ainda tenho – e tu tanto elogias – para decorar e governar uma casa com quase nada. Foram dias a costurar e remendar roupa, a fazer bainhas. Cheguei a arriscar em demasia, numa loja, quando quis comprar tecido para fazer umas cortinas, até para evitar olhares curiosos. Restaurei móveis que já estavam mais para lá do que para cá e, acredita, nem as cadeiras de praia na sala pareceriam desajustadas a quem lá entrasse. Tínhamos desculpa pronta na ponta da língua:
- Sabe, agora as pessoas mais novas já não querem as velharias dos móveis dos pais…
Qualquer contacto da «família» mais chegada era feito para o telefone do senhorio que só por uma vez nos fez gelar o sangue: a pretexto de verificar uns problemas na casa, o homem ia descobrindo a tipografia clandestina onde eu passava dias inteiros a montar e a imprimir, letra a letra, forma a forma, os jornais e panfletos clandestinos que deixava em lugares e esconderijos de confiança do Partido.
- À menina, pelo menos, roupa não lhe falta, porque lá o guarda-fatos é pesado que se farta!
…dizia o senhorio, arrastando móveis, sem desconfiar de que carregava o rolo de impressão disfarçado entre meia-dúzia de trapos. Houve alguns sustos, é verdade, mas nada de grave. Talvez o maior tenha sido aquele do bebé que apareceu, abandonado e morto, no mato, perto da nossa casa. Durante alguns dias não saímos, receando que a polícia rondasse a zona e descobrisse o que, afinal, não buscava.
Em dias festivos, daqueles em que as famílias se reúnem e esquecem as agruras – e eram tantas, nessa época, meu querido! – desaparecíamos o dia inteiro, passeando a pé, quilómetros e quilómetros, em voltas repetidas, tristes e sós, apenas para manter as aparências. Tinha de ser. Que diriam se, nessas alturas, não visitássemos a família?
Não houve Páscoa, nem Natal, sabes?
Minto: houve um Natal triste, o pior de todos os que me lembro. O Partido ainda nos mandou uma cesta com um frango, ameixas pretas e bacalhau. Mas a comida, como antes, não me passava. Nessas alturas, as saudades eram um cárcere, emoções e sentimentos em reboliço, o peito sufocando. Durante esse tempo todo, desafiando proibições, liguei apenas uma vez para casa.
Não aguentei.
Fiquei a ouvir a voz da minha mãe, a tua avó perguntando quem era, quem falava, um «tou, tou!?» mecânico, quase desesperado. E eu, do outro lado da linha, mordendo os lábios, o choro, sem dizer palavra, só para a ouvir e me sentir…em casa.
Guardo ainda as cartas que lhe escrevi. E as dela, para mim. Sim, um dia mostro-te. Talvez me ajudes a ganhar coragem para voltar a lê-las…
Foram meses melancólicos, com angústias, memórias e desejos insuportáveis sugando as horas e os pensamentos. Quase sem comida, nem água quente. E tendo por companhia um rádio triste e velho. Tempos difíceis, cravados na carne. E desafiadores, à noite, quando tudo parece interminável, no escuro.
Depois veio o incidente. E a situação só piorou.
Não morria de amores pelo meu companheiro de clandestinidade. Como marido e mulher que não éramos, dormíamos em quartos separados.
Um dia, ele propôs que nos tornássemos um casal. De facto.
Não censurei. Até compreendia, dado o contexto. Não somos de ferro.
Mas não quis.
Disse que não estava disponível, nem sequer gostava dele como homem.
Se o Partido mandava que fosse esse o disfarce, eu estava disposta a mantê-lo nesses termos. Nada mais.
Durante quinze dias, o meu «marido» não me falou.
O silêncio acumulou silêncio. E a companhia dele tornou-se ainda mais insuportável. Nesse período, quase não comi. Fazia a comida para ele, mas eu apenas bebia leite de manhã e pão e cevada à noite. Emagreci cinco quilos.
Da primeira vez que foi confrontado com o problema, o «tio» enviado pelo Partido desvalorizou:
- Não leves isso a peito.
O mais natural, dizia ele, era que acabássemos juntos, afinal a relação de muitos «companheiros e companheiras» tinha começado assim, na clandestinidade. Até facilitava as coisas.
Talvez.
Mas não era para mim.
Quiçá por isso não me tenham espantado, já nos anos livres contados a partir de Abril, as separações e divórcios de muitos «companheiros e companheiras» acasalados à força em tempo de servidão.
Além disso, eu estava descontente com o papel que me havia sido reservado.
Continuava disponível para as tarefas do Partido, não era mulher de desistências.
Não queria virar a cara à clandestinidade, mas os constrangimentos aumentavam, a pessoa com quem era obrigada a viver não me falava e sentia-me reduzida a tarefas domésticas. Fiz sentir ao «tio» que estava disponível para mais, demonstrar outras qualidades, por mais arriscadas que fossem. Cedo percebi que o Partido aproveitava mal as capacidades de trabalho das «suas» mulheres revolucionárias. Uma atitude algo machista disfarçada e dissimulada em razões de segurança, perceberia, com amargura, muitos anos depois.
- Não leves isso a peito.
Repetiam-me.
Com o tempo, vieram os pedidos de desculpas do meu «marido» de improviso e a compreensão de instâncias superiores. Mas as coisas não melhoraram nem quando o Partido proporcionou uma visita dos nossos «pais» de encenação.
Aconteceu, meu querido (e compreenderás que seja a primeira vez que conto isto a alguém), que o camarada «pai» também se atreveu a ir longe de mais, insinuante.
Mais uma vez, recusei.
Mas não me livrei de ser ameaçada, com uma arma de defesa pessoal, pela mulher dele, que o acompanhava na clandestinidade e me acusava de me vestir de forma provocadora ao ponto de desestabilizar a harmonia do casal de camaradas.
- Atreve-te!
Disse-lhe. E nem sei como ganhei coragem para tanto. Eu, uma fedelha à beira dela.
Ambas sabíamos que o Partido tiraria graves consequências do sucedido. E ela seria chamada a responder perante os seus actos. Infundados, de resto. Talvez por isso, recuou. Mas nem a liberdade e as bandeiras partilhadas iriam sarar as feridas desse momento.
Nesse tempo, meu querido, não sabíamos quando a liberdade viria. E se viria. As vidas que escolhêramos não tinham prazo de validade. Para mim, era liquido que a espera se tornaria longa. Aguentava-se ou desistia-se. E eu não admitiria renegar.
Nas semanas anteriores à Revolução, ponderara-se, porém, a minha ida para um país amigo, a Leste, para ganhar traquejo e formação. O Partido tinha, afinal, outros planos para mim. Quando regressasse, dizia-se, voltaria para uma nova casa clandestina. E teria novas tarefas na organização.
Quando o 25 de Abril chegou eu havia recebido um dinheiro extra para comprar umas malas de viagem, tirar de casa todo o material suspeito e preparar-me para partir, às ordens do Partido.
Não fui, como imaginas…
Esse dia «inteiro e limpo» de que a Sophia fez poema, passei-o em casa.
E outro. E mais outro. E outro e outro.
No dia 29, saí finalmente à rua.
Apanhei o autocarro para a baixa como se nunca tivesse viajado num, desaprendida de respirar a normalidade do quotidiano e os dias claros, sem óculos escuros nem disfarces.
Quando parei à porta de casa, o teu tio Júlio demorou a perceber quem eu era. Estava magra, encovada e loira. Irreconhecível, ao fim de quase um ano.
- Sou eu, já não me conheces?
Gritou então o meu nome. Uma e outra vez. Apertou-me junto ao peito, pegou-me ao colo. Louco, louco como nunca o vi! Quando entrámos em casa, nem tive tempo de reagir: recebi no rosto uma bofetada violenta, cega de dor e impotência.
- Para a próxima, não voltas a sair de casa sem avisar!
Disse a minha mãe, tua avó, lavada em lágrimas, caindo-me nos braços.
Mas sabes, meu querido? Havia flores novas na velha casa do Vale Formoso. E cheirava a bolinhos de bacalhau, quentinhos, acabados de fritar.
M.C.
Gostar disto:
Be the first to like this artigo.