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A Santidade

Começou com o jogging.

De cada vez que Sócrates vai ao estrangeiro, a corridinha matinal do Primeiro-Ministro é regra. Numa visita aos EUA, Bush elogiou-lhe o bom exemplo que dava aos seus cidadãos, assim tão saudável e atlético. E até Putin mandou reforçar a segurança na Praça Vermelha para Sócrates correr. O jogging tomou uma importância tal nas viagens do chefe de Governo que só lhe falta estar na agenda oficial.

Já o cigarro é outra coisa.

O cigarro era vício privado, entre cortinas e fumarada. Supostamente cúmplice, terá pensado Sócrates. Nada que fosse de exibir, ainda que genuíno.

Apanhado entre baforadas na viagem para Caracas, Sócrates fez o que devia em nome de um Governo proibicionista e higienizante apanhado de calças na mão: pediu desculpa ao País. Agora só falta pagar a coima.

Não satisfeito, o Primeiro-Ministro disse que ia deixar de fumar. E disse-o pela segunda vez. No dia seguinte lá voltou ele ao jogging.

Se não me engano, esta forma de estar na política teve o seu momento alto com Bill Clinton. Um dia perguntaram-lhe se já tinha consumido drogas e ele negou. Fumar não era a mesma coisa que inalar, explicou. Seguindo a mesma lógica, o fellatio de Monica Lewinsky na sala oval também não podia, de facto, ser considerado sexo. Foi apenas um deslize, um momento de fraqueza do presidente.

Aplicando o mesmo raciocínio, também não se pode dizer que Sócrates tenha fumado no voo para a Venezuela. Passou-se, simplesmente. E tal como Bill Clinton se arrependeu dos seus actos indo à missa e mergulhando na Bíblia, Sócrates promete regenerar-se e portar-se bem, mesmo quando só houver cortinas a separar a classe «executiva» da «turística». Com sorte, ainda teremos boletins médicos semanais sobre os passos da sua recuperação.

O grave, pois, não é ver um Primeiro-Ministro de um Governo que trata os fumadores como delinquentes provar um pouco do seu próprio veneno. Grave é ver um Primeiro-Ministro perder a noção de decência e personalidade em nome da sua imagem pública.

Houve um tempo em que nos contentávamos que os nossos líderes fossem decentes e sérios no exercício dos cargos. Agora, pelos vistos, também queremos que eles caminhem para a canonização. Se esta é a vigilância que pretendemos exercer sobre os governos e neles buscamos o nosso guia espiritual, bem merecemos ser tratados como rebanho.

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