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Não vivo na Rua de Santa Catarina. Mas habituei-me a vê-la como um prolongamento da minha casa. Coisas do quadro mental de quem vive na baixa.

A rua tem adolescentes persistentes em matéria de inquéritos, peluches e apoio a tuberculosos. É uma passarelle de putos da moda que parecem todos saídos da mesma fornada. Tem um jovem demasiado envelhecido, de voz rouca, guitarra velha e caixa de sapatos. Que canta – e bem – o repertório unplugged dos Nirvana. Todos os dias. A rua tem o Porto vadio, palhaços e balões. Tem bancas e estaminés de bugigangas étnicas e pintores de veia turística. Santa Catarina tem lojas de luxo e montras dormitório, em cama de papelão. Tem cães vadios que dormem, tal como os donos, sem abrigo.

Tem a loja de carteiras que faz a delícia de uma amiga brasileira e mistura de aromas de perfume caro e lavanda. Tem homens de reclames ao pescoço dizendo «compro ouro». Tem mulheres de avental, uma delas com muitos desmanchos feitos, a vender peúgas, lingerie e relógios. Tem cegos de nascença. E ainda homens besuntados de gel e toda a pinta de esquemas a vender óculos «de marca» num sussurro. Tem pedintes profissionais, bancas de abaixo-assinados contra a construção no Palácio de Cristal e as touradas, e artistas e malabaristas de rua, saltimbancos de casa ao relento. A rua tem castanhas fora de época e gelados quase todo o ano. Tem ainda a memória – e só ela – do jornal que aqui morou: O Primeiro de Janeiro.

Tem o mítico Grande Hotel do Porto, onde o tempo quase não passou, e a confeitaria Império, um dos dois sítios com os melhores rissóis da cidade (o outro é Ateneia). Santa Catarina tem o Majestic, onde todos parecemos sempre mais importantes do que realmente somos. Tem turistas de câmara e telemóvel na mão, captando os lugares e as gentes. Tem repórteres de televisão a inquirir sobre o custo de vida ou a corrida aos saldos. Tem a Capela das Almas, algumas penadas. Tem um café que faz comida venezuelana (arepas) e, já fora do bulício, a caminho do Marquês, as boas francesinhas do Bufete Fase.

Santa Catarina tem diversidade étnica, de classe e geração. Tem alma, tem corpo e sonhos em gestação, mesmo que esses passem apenas pela fachada. Vai-se ao fim da rua como ao fim do mundo. De forma crua ou sofisticada, a cidade mora toda aqui. Por vezes, com maquilhagem. Mas sem disfarçar as costuras da vida, a mesma que nos entra pelos sentidos sem pedir licença. O Porto é isto. E está todo aqui, nesta rua que é quase, quase, o meu pátio das traseiras.

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